O PESO DA LUZ
Toda criatura traz dentro de si um impulso para o progresso espiritual. Mesmo que não pense nisso, a centelha do amor de Deus, colocada em sua consciência, faz com que se mova, constantemente, na direção de sua evolução espiritual.
Até aqueles que hoje têm o coração endurecido e que ainda persistem nas paixões inferiores, na maldade, têm lá no fundo de sua consciência a tendência para progredir e para caminhar em direção à pureza, em direção à Deus, nosso Pai.
Existem, porém, aqueles que, por já trazerem dentro de si uma força de vontade tão grande e a noção nítida de sua própria imperfeição, conseguem passar nesse planeta de provas e expiações, dedicando-se ao próximo, negando-se a si mesmo. Essas pessoas, obviamente, são candidatas naturais à elevação espiritual. Candidatas a serem promovidas, a passarem pela porta estreita que leva ao plano espiritual superior, onde não haverá senão felicidade no serviço e onde terão oportunidade de entender Deus, em sua infinita bondade e em sua infinita pureza.
Selecionamos do livro Coração e Vida, de Maria Dolores, psicografado por Francisco Cândido Xavier, uma história em forma de verso, intitulada “A Promoção”. É sobre alguém que muito se dedicou ao próximo fazendo a caridade pela caridade, amando a todos aqueles que o procuraram.
Conta-nos assim, Maria Dolores:
Resplendia o jardim celeste em pleno Espaço.
Era um maravilhoso dia
De alto deslumbramento
Do encontro de união e de alegria,
Dos que haviam servido, passo a passo,
Nas tarefas do amor sem recompensa
Na terra, onde o egoísmo
Tanta vez se condensa.
Era uma nesga azul de solo rarefeito
Matizada de flores
Bordadas de arabescos multicores
Onde podia respirar apenas
Quem já pudesse irradiar
As vibrações serenas
Da fé sublime alçada ao bem perfeito.
Não eram muitos os conquistadores
Daquela posição de excelsos resplendores;
Quarenta e dois Espíritos somente,
Todos eles modelos de bondade,
Eram ali o escol da Humanidade,
Em atitude calma e reverente
Esperando a sonhada promoção
Que constaria
Do poder de elevar-se à próxima ascensão.
Na luminosa e ilustre confraria
Estavam sacerdotes de renome,
Filósofos, notáveis pensadores,
Nobres mulheres, santas heroínas,
Monges mostrando fontes peregrinas,
Jovens que haviam sido vencedores
De tentações terríveis...
Todos trocavam frases de altos níveis...
Somente alguém, ali, em meio a tudo,
Que era festa de brilho e de beleza,
Parecia um mendigo, triste e mudo,
Era o irmão Jonaquim,
Desconhecido entre os demais...
Vestia-se com peles de animais,
Remarcadas de lama...
Na expressão rude e feia,
Exibia sinais de sangue, lodo e areia;
Jazia ele a um canto, humilde, pensativo,
Enquanto o grupo conversava em festa.
Chegara o instante, enfim,
Da nobre promoção;
Aquele dos presentes que tivesse
O menor peso espiritual
Seria alçado à frente
Do caminho esplendente
Para mansões mais altas e mais belas
Da vida Universal.
Vieram ao recinto os dois encarregados,
Ambos chamados Anjos da Balança,
E os candidatos sem qualquer despeito
Deixaram-se pesar num instrumento perfeito
Que lhes patenteava
A evolução imensa...
E o peso em cada um
Era leve, tão leve,
Que não se via quase
Uma pequena base
Para que se notasse a diferença...
O recatado Jonaquim
Ficou de longe, muito ao longe,
E sendo o último no exame
Foi chamado por fim..
Ele veio acanhado,
Pés descalços no apoio de um bordão
E um dos dois mensageiros perguntou:
- Jonaquim, meu irmão,
Dizei qual foi na Terra a vossa religião?
Precisamos aqui de vossos dados,
Para serem por nós
Devidamente revisados.
No entanto, Jonaquim, humilde respondeu:
Anjo bom, sou sincero... Crede!... Eu.
Não tive sobre a terra a fé pregada,
Acreditei, como acredito agora,
Na presença de Deus que nos guarda e aprimora,
Entretanto, por mais que eu desejasse procurar
Um templo ou algum lugar
Para aprender como se adora Deus,
Nunca pude sair da choça em que morei, ao pé de antiga estrada,
Onde os que sofrem eram irmãos meus...
Era um deserto a terra em que vivi...
Despendi muito tempo
A transportar crianças e doentes,
Que ansiavam por água em solos diferentes...
Minha estreita choupana
Era uma porta aberta à desventura humana...
Ouvi a confissão de míseros velhinhos
Que clamavam em vão, pelos parentes,
Agonizando desvalidos,
E aguardando, debalde, os próprios descendentes...
De quantos eu cerrei, na morte, os olhos baços
Não saberei o número por certo...
Só Deus sabe os que vi morrendo nos meus braços
E os que enterrei a sós na penúria sem nome,
E as crianças sem apoio que me buscavam,
Sentindo sede e fome...
Deus me perdoe se nunca fui às crenças
Para estudar a fé e entender diferenças...
Ouvi dizer, na Terra, que houve um homem
Que nunca descansou, fazendo o bem,
Que amou aos bons e aos maus sem ferir ninguém!...
Ah! como desejava tê-lo visto!
Dizem que se chamava Jesus Cristo.
Nunca lhe ouvi, no mundo, os lúcidos ensinos
E ouvi também dizer que por serem divinos,
Ele morreu na cruz.
A pequena assembléia
Escutava, expectante e enternecida,
Aquele que soubera amenizar a vida.
E os Anjos da Balança
Puseram Jonaquim, sob o exame preciso,
Em nome de Jesus...
Depois anunciaram num sorriso
Que o velho Jonaquim tinha o peso da luz.
É difícil imaginar como seria ter o peso da luz! Mas o velho Jonaquim conseguiu. Interessante notar que ele não tinha fé religiosa formalmente estabelecida. Apenas acreditava no Criador, naquele que o havia colocado no mundo e sentia aquele impulso irresistível de negar-se e voltar-se para seu irmão necessitado. Passou toda sua vida sem ir à escola, sem aprender as letras, as teorias, as filosofias, as teologias, mas sabia, no íntimo de seu ser, o que deveria fazer para melhorar-se e para amenizar as dores de seus semelhantes.
Era cristão? Não declaradamente, mas pelo exemplo de vida. Sabia, por ouvir falar, que Jesus Cristo existira e que trabalhara sem descanso fazendo bem. Mesmo sem ter ouvido diretamente os ensinos do Mestre Jesus, era um verdadeiro cristão em atos, em dedicação, em caridade com seu semelhante. Assim como Jesus, era um justo.
Justo é todo aquele que cumpre a Lei de Deus, a lei do amor, justiça e caridade, sem perceber. Cumpre-a, naturalmente. Não precisa ser pressionado para agir de forma desprendida. Apenas age.
Assim era Jonaquim, um justo! Uma choupana à beira da estrada, de porta aberta para todos aqueles que necessitavam.
Maria Dolores apresenta, na história de Jonaquim, algumas lições de caridade que devem ser aprendidas por quem deseja ser um discípulo do Mestre. Abordou de novo os míseros velhinhos desamparados, menosprezados ou desprezados pelos seus parentes, irmãos nossos muitas vezes considerados como estorvo. Alguém que já viveu e que agora incomoda, que atrapalha, que requer cuidados. E nem sempre podemos dedicar nosso “precioso tempo” cuidando de pessoas idosas, velhas, doentes improdutivas para a sociedade. Quantos irmãos se encontram nessa situação? Quantos são os esquecidos nos asilos por parentes que prometem: “- Voltarei breve, não se preocupe, estarei sempre aqui com você!” - e nunca mais aparecem?
Chamou, também, a atenção para os meninos de rua. Muitos têm família, têm casa, mas fogem porque o ambiente doméstico não representa um lar que possa lhes trazer educação, amparo, amor e compreensão. São agredidos pelos pais, pelos padrastos, pelos parentes, pelos irmãos e fogem. Preferem viver na rua, junto ao mundo, do que em casa, onde se vêem longe de obter o consolo e o carinho necessário para a sua evolução. Crianças necessitadas, famílias necessitadas, todos requerendo aprendizado, compreensão, luz.
Podemos nós, que vivemos em sociedade organizada, nos considerar cristãos como Jonaquim? O que nossa sociedade faz em direção às dores, às injustiças e à ignorância do mundo? O que fazemos quando olhamos para quadros como esses? Muito pouco ou quase nada! Continuamos a seguir a vida como sempre fizemos, ignorando os problemas alheios como se não fossem nossos.
Jonaquim, não! Via nas crianças necessitadas a oportunidade de ajudar, a oportunidade de esclarecer, de amparar, de alimentar, de agasalhar, procurando fazer diferença no mundo em que vivia. E Jonaquim fez diferença! Não quis passar sua encarnação como se nada devesse construir. Estava sempre disposto a esquecer de si próprio e ajudar a quem pedia. Isto é ter o peso da luz!
Reportando aos ensinamentos colocados no Evangelho Segundo o Espiritismo, vamos encontrar no capítulo XVII, item 3, as características de um homem de bem. Um homem de bem é aquele que procura fazer diferença no mundo em que vive, exemplificando a lei do amor e está a caminho da luz. Um homem de bem: “Tem fé no futuro, colocando os bens espirituais acima dos bens materiais; é humilde perante Deus em sua infinita bondade, justiça e sabedoria pois sabe que nada acontece sem Sua Vontade; procura ser justo, buscando cumprir a Lei da Justiça, do Amor e da Caridade, na sua maior pureza; sabe que as vicissitudes são provas e expiações, agindo de forma resignada diante das dores, aceitando as coisas sem murmurar ou reclamar; faz o bem pelo bem, defende o fraco, sacrifica seus interesses pelo interesse da justiça; encontra satisfação nos benefícios que espalha e no serviço que presta, sem alarde, sem vaidade, sem orgulho, apenas sente a satisfação como se observasse a presença divina dentro de si; é benevolente com todos sem distinção, de raça, cor, credo ou idade; não importa no que acredita, importa apenas aquilo que ele faz”.
Aquele que desejar ter o peso da luz, assim como o velho Jonaquim, deve respeitar as convicções sinceras e não lançar discussões sobre teorias com aqueles que não pensam como ele. Deve ter a caridade como guia, moderando suas palavras e suas ações, evitando ferir ou proporcionar suscetibilidades nos outros. Deve sempre recuar diante da eminência de faltar com amor ao seu semelhante, ao seu próximo.
Que possamos, todos nós, conhecer, entender, aceitar, admitir e observar em nossas ações as virtudes do homem de bem. Não vamos permanecer preocupados com as nossas fraquezas e inferioridades, que ainda são muitas, pois aquele que caminha na direção do bem, vence, através da luta constante, suas próprias inferioridades, colocando em seu espírito os valores eternos da espiritualidade. Coloca em seu espírito a luz necessária para fazê-lo passar pela porta estreita, aquela pela qual só conseguem passar os justos.