JONAS, O CONTADOR DE HISTÓRIAS

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PRIMEIRO A ABNEGAÇÃO, DEPOIS O RECURSO

O espiritismo é uma doutrina que nos convida à interiorização de valores e à meditação quanto a postura que assumimos frente ao mundo em que vivemos. As coisas ficam tão claras com a doutrina espírita - que alia o Evangelho de Jesus à filosofia espírita -, que o consolo começa a tomar corpo e a se fazer presente para agasalhar nossos corações e nossa alma sofredora.

Na medida em que aprendermos e aceitarmos que tudo no universo está certo, que tudo está correto conforme a vontade do Pai, e começarmos a avaliar nossas ações frente ao mundo, poderemos perceber que nada ou muito pouco fazemos ou fizemos para modificar o mar de dores e aflições que envolve o homem, encarnado ou desencarnado.

Com o conhecimento da doutrina espírita - cristianismo redivivo -, a luz começa a se fazer sentir em nosso ser, mesmo que de forma muito tênue. O entusiasmo, ao percebê-la presente, faz com que tentemos galgar, de um único salto, o caminho da virtude, modificando nosso ponto de vista e desejando ser, de pronto, o que ainda estamos longe de ser.

Queremos atender ao semelhante que sofre, queremos exercitar a caridade. Mas não aquela caridade que provém do esforço continuado, lenta, progressiva, dedicada. Não! Queremos, conforme a nova percepção adquirida, algo maior, mais rápido, mais eficiente - a caridade ligada às grandes obras. Sentimos a força do pensamento nos impulsionado para o que é grande, majestoso e destacado.

Assim, movidos pelo entusiasmo, sentimos, por exemplo, vontade de montar um asilo para abrigar os idosos desamparados da sorte, pessoas que já viveram, que estão no limite da vida encarnada e que muitas vezes são esquecidas pela família. Sentimos o desejo de fazer alguma coisa por elas. Temos que dar-lhes um pouco mais de amor e de esperança. Elas precisam de um teto, de um leito. Necessitam de quem cuide delas, de quem converse com elas, de quem mostre que ainda são muito importantes, que a vida não termina com a morte, e que, se hoje seus corpos já estão cansados, seus espíritos são eternos.

De forma semelhante, quando passamos pela rua e presenciamos a miséria, sentimos o impulso de modificar esse mundo desigual. Queremos ajudar a todos. Talvez, quem sabe, construir uma casa que possa abrigar a infância desamparada, que possa levar a essas crianças um pouco mais de alento e educação, que há de forjá-las para um futuro melhor.

E então, pensamos: - "Se eu tivesse um pouco mais de recursos..., se eu ganhasse um pouco mais de dinheiro..., se eu tivesse um pouco mais de influência no mundo..., poderia fazer tanta coisa para minimizar o sofrimento de meu semelhante! Ah! Se Deus me desse recursos, o que eu não faria?"

O entusiasmo que nos move, nessas circunstâncias é real, é verdadeiro. Mas os objetivos e a vontade ainda não são. Poucos são aqueles que, tomando contato com a doutrina espírita, não têm, mesmo que de leve, esse tipo de pensamento. E muitos ainda são aqueles que pedem e aguardam, até hoje, a vinda dos recursos exteriores, para começarem a fazer alguma coisa na direção da melhoria do mundo. Sentimo-nos renovados internamente porque já acreditamos no caminho apontado pela lei da caridade. Já entendemos que fomos ou estamos sendo omissos frente às dores e vicissitudes da humanidade. Queremos mudar as coisas rapidamente. Então pedimos e esperamos os recursos para o trabalho. Afinal, Jesus não nos disse: "Pedi e vos será concedido"?

Mas, será que aguardar que o recurso venha seja exatamente a ação que devemos empreender? Bezerra de Menezes orienta os trabalhadores da seara do bem com uma frase que diz: - "Meus irmãos, primeiro demonstrem sua abnegação que depois virá o recurso." Deus não entrega fardos pesados a ombros fracos, incapazes de perseverar diante das pedras e dificuldades do caminho. Isto quer dizer que só predisposição não basta para que se possa fazer alguma coisa. É uma condição necessária, mas está longe de ser suficiente.

Recursos? Só para quem demonstre, com ações, que é capaz de perseverar na obra. Jesus realmente disse que devíamos pedir, mas também que devíamos procurar, ir ao encontro daquilo de que estivéssemos precisando. Aí, tudo nos seria concedido pelo esforço. Jesus, com suas palavras, não estava nos convidando a uma postura estática, de espera, mas a assumir um comportamento dinâmico, de trabalho, de fé por meio das obras.

Toda predisposição, todo entusiasmo, sem o alicerce do esforço próprio e da fé, são meramente superficiais e, no primeiro embate, na primeira dificuldade, desiste da luta. Os ombros não são suficientemente fortes para carregar os fardos necessários.

A história da humanidade mostra exemplos de pessoas que venceram o mundo e a si mesmas e que, desde a mais tenra idade, dedicaram-se espontaneamente ao serviço de seus semelhantes, sem aguardar que recursos outros, além de seu próprio esforço, lhes fossem passados. Seus testemunhos de fé nos mostram que, dentro do princípio do "é dando que se recebe", na medida em que o entusiasmo interior ia se transformando em ação efetiva, seus ombros reforçados iam recebendo, gradativamente, um pouco mais de carga. Desta forma, aqueles sublimes viajores viveram e exemplificaram, procurando dar de si para amenizar as dores dos seus semelhantes, conseguindo, com a renúncia de si mesmos, construir sua própria igreja de amor e caridade, colocando um tijolo a cada dia, mas todo dia colocando um tijolo.

Selecionamos no livro de Hilário Silva, Almas em Desfile, uma história que bem poderia representar nosso entusiasmo para salvar o mundo. Intitula-se "Renovação".

Conta-nos assim, Hilário Silva:

 

Suspirava pela nomeação para o cargo público que lhe daria 40 mil cruzeiros por mês. Conquistara o diploma de bacharel. Numa noite, acalentando o desejo de instituir várias obras de beneficência, em favor da humanidade sofredora, Raimundo Perez orava extático.

Queria subir. Desvencilhar-se do corpo físico. Entraria em contacto com a esfera superior e formularia a súplica que acalentava no íntimo.

Aspirava ao título de benemérito no campo da doutrina que professava.

Mas precisava de dinheiro. Muito dinheiro.

Quem sabe? Somente os espíritos superiores poderiam dissolver as dificuldades que se lhe antepunham ao grande intento e pensava:

- "Nomeado com os vencimentos de 40 mil cruzeiros mensais, poderia encontrar o necessário começo... Em seguida, ganharia influência, atrairia poderosos, escalaria montanha de ouro e granjearia a importância política para cumprir a missão..."

Embalado em deliciosas miragens, Perez dormiu e viu-se efetivamente desligado da máquina corpórea.

Reconheceu-se subindo, subindo... até que se viu em amplo salão, à frente de nobre instrutor que o recebeu entre bondoso e severo.

A breves momentos inteirou-se de toda situação.

Alcançara grande instituto do plano superior, que supervisionava várias tarefas espíritas na esfera dos homens.

Contudo não era ali o único visitante.

Em torno, enorme multidão. Muitas vozes, muita gente.

Alguém, mais categorizado que ele para pedir, ergueu-se diante do benfeitor e, com sublime sinceridade, rogou informe sobre a razão de tantos fracassos entre os companheiros do Espiritismo na Terra.

Era missionário da verdadeira fraternidade, buscando, piedosamente, recurso de amparo moral para os próprios irmãos na fé.

Ninguém ousou adiantar-se-lhe aos rogos.

A petição era comovente demais para que outros requerimentos lhe tomassem a dianteira.

Foi então que o generoso mentor tomou a palavra e falou com franqueza:

- Com base em inúmeros dados estatísticos, colhidos junto aos nossos companheiros na Terra, podemos esclarecer que grande número de profitentes do Espiritismo, na carne, tem fracassado devido as seguintes atitudes:

- Querem dinheiro e dominação...

- Querem autoridade e influência...

- Querem saúde física perfeita...

- Querem a compreensão alheia integral...

- Querem as mais altas concessões da mediunidade, sem o esforço para obtê-las...

Tudo isto, porque se esquecem de que, na Terra, devemos estar cientes do ensino de Jesus, que afirmou categórico quando esteve na carne: - "Meu reino não é deste mundo".

O benfeitor teceu ainda algumas considerações sobre o tema e, ao acabar de falar, Raimundo sentiu-se desamparado em si mesmo.

Guardava a sensação de quem via o solo a fugir-lhe dos próprios pés.

E sentiu-se cair... do alto, de muito alto... E acordou.

Identificara-se, mas visceralmente transformado.

Conservava a impressão de prosseguir envergonhado de si mesmo.

Acompanhou a mãezinha ao mercado ajudando-a prestativo. Não mais falava na sua nomeação com entusiasmo anterior, e a palavra dinheiro passou a ter para ele, importância bem secundária.

A vista de tudo isso, D. Conceição, sua genitora, chamou os outros dois filhos mais velhos a longa conversação e assentaram juntos que um psiquiatra deveria ser consultado.

Anotando a súbita renovação de Raimundo, todos os familiares julgaram que o pobre rapaz ficara perturbado da razão....

 

No episódio, que Hilário Silva conta, pode-se observar que o entusiasmo de Raimundo era real. Desejava ter a oportunidade de ser nomeado para ganhar um pouco mais, para que, então, pudesse começar a utilizar esse dinheiro em favor de quem chora, em favor de quem sofre.

Entretanto, sua postura era semelhante a de alguém que desejasse colocar "a carroça na frente dos bois". Era a postura de quem tentava barganhar com a Divindade, dizendo assim: "- Dê-me recursos materiais que eu vou mostrar do quanto sou capaz!"

Esse é um comportamento muito comum entre os homens. Mas será que, quando agimos ou pensamos assim, temos, realmente, o objetivo de fazer alguma coisa para o próximo com esse recurso?

Com o Criador, que nos fez à sua essência, não se pode barganhar, porque as fraquezas humanas, as deficiências, as falhas são todas conhecidas, e se não houver a sinceridade de propósitos, nada nos será dado, nada nos será concedido. Devemos primeiro conquistar o mérito para depois nos habilitarmos a receber o justo recurso.

Para que algo possa nos ser concedido por Deus, devemos demonstrar a dedicação em relação ao trabalho que pretendemos realizar, gerando a necessidade do amparo e do recurso. Essa regra é universal. Vale para todos os filhos de Deus, não importando a crença, a raça, a religião. Vale para o espírita, para o católico, para o budista ou protestante. Vale também para ações fora da religião e se relaciona com tudo aquilo que se faz no mundo.

Se queremos construir alguma coisa, que sejamos capazes de fazê-lo com o nosso próprio esforço, para que haja mérito na ação e para que nossos ombros sejam reforçados pela experiência, pela dedicação e pelo trabalho. Aí sim, nossa luz há de brilhar e de ser vista como exemplo de humildade, diante de Deus, e de caridade, diante do próximo.

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