JONAS, O CONTADOR DE HISTÓRIAS

 

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Não vou como quero...

Tive um amigo que toda vez que lhe perguntavam:

 - E aí, como vai? - costumava responder:

 - Eu não vou como quero, mas vou muito melhor do que mereço!

Eu achava sua resposta interessante, porque, nessa afirmativa, demonstrava de forma clara que pretendia ser muito melhor do que era e que estava insatisfeito com sua própria sorte. Mas, ao mesmo tempo, reconhecia que a sorte que tinha estava muito acima daquilo que realmente merecia. Com sua resposta, dava provas de humildade, de resignação e de reconhecimento de que tudo o que lhe acontecia estava dentro dos limites que Deus permitia e que este chegava mesmo a fazer-lhe concessões acima daquilo que teria por mérito ou por esforço próprio. Mas, além da resignação, dava também a demonstração de força de vontade e de postura proativa, de quem busca continuamente o crescimento por não se sentir satisfeito com seu estado atual. Não ia como queria ou como gostaria, apesar de reconhecer que estava muito melhor do que efetivamente merecia. Reconhecia a misericórdia com que o Pai lhe favorecia o caminho.

Aqui, neste mundo, diversas são as ilusões que nos visitam e que, freqüentemente, complicam a visão de nossa própria natureza e de nossa missão evolutiva. Deixamo-nos levar por certos vícios e certas falhas, tais como vaidade, orgulho, necessidade de parecer diferente do que somos e de nos destacar no grupo em que vivemos, esquecendo-nos de que Deus nos dá exatamente aquilo de que precisamos para o caminho evolutivo. Os desígnios do Pai são justos e estão em conformidade com a sua lei, que nos aponta a necessidade de amá-Lo sobre todas as coisas e de amar ao próximo como a nós mesmos.

A humildade é, portanto, uma virtude determinada na lei e deve ser desenvolvida em nossos espíritos, atuando como alavancadora das nossas ações e como portadora da nossa compreensão para com a justiça e os desígnios de Deus.

A história que se segue foi selecionada do livro Alvorada Cristã, do Espírito Néio Lúcio, psicografado por Francisco Cândido Xavier, e publicado pela FEB e se intitula "O Carneiro Revoltado". É sobre alguém que não compreende os desígnios de Deus, e busca melhorar sua situação por meio de postura de insatisfação com revolta, sem resignação e sem reconhecimento.

Conta-nos assim, Néio Lúcio:

Certo carneiro, muito inteligente, mas indisciplinado, reparou os benefícios que a lã espalhava por toda parte, e, desde então, julgou-se melhor que todos os seres da Criação, passando a revoltar-se contra a tosquia.

- Se era tão precioso, - pensava -, por que aceitar a humilhação daquela tesoura enorme? Experimentava intenso frio, de tempos a tempos e, despreocupado das ricas rações que recebia no redil, detinha-se apenas no exame dos prejuízos que supunha sofrer.

Muito amargurado, dirigiu-se ao Criador exclamando:

- Meu pai, não estou satisfeito com a minha pelagem, a tosquia é um tormento... Modifica-me Senhor!...

O Todo Poderoso indagou, com bondade:

- Que desejas que eu faça ?

Vaidosamente , o carneiro respondeu:

- Quero que minha lã seja toda de ouro.

Sua rogativa foi satisfeita. Contudo, assim que o orgulhoso ovino se mostrou cheio de pêlos preciosos, várias pessoas ambiciosas atacaram-no sem piedade. Arrancaram-lhe, violentamente todos os fios, deixando-o em chagas.

O infeliz, a lastimar-se, correu para o Altíssimo e implorou:

- Meu Pai, muda-me novamente! Não posso exibir lã dourada... encontraria sempre salteadores sem compaixão.

O Sábio dos sábios perguntou:

- Que queres que eu faça?

O animal, tocado pela mania de grandeza suplicou:

- Quero que minha lã seja lavrada em porcelana primorosa.

Assim foi feito. Entretanto, logo que tornou ao vale, apareceu no céu enorme ventania que quebrou todos os fios, dilacerando-lhe a carne.

Regressou, aflito, ao Todo-Misericordioso e queixou-se:

- Pai, renova-me!... A porcelana não resiste ao vento... estou exausto...

Disse-lhe o Senhor:

- O que desejas que eu faça?

- A fim de não provocar os ladrões nem ferir-me com porcelana quebrada, quero que minha lã seja feita de mel.

O Criador satisfez o pedido. Todavia, logo que o pobre se achou no redil, bando de moscas asquerosas cobriram-no em cheio, e, por mais que corresse campo a fora, não evitou que elas lhe sugassem os fios adocicados.

O mísero voltou ao Altíssimo e implorou.

- Pai, modifica-me... as moscas deixam-me em sangue!

O Senhor indagou, com inexaurível paciência:

- Que queres que eu faça?

Dessa vez o carneiro pensou mais tempo e considerou:

- Suponho que seja mais feliz se tivesse minha lã semelhante às folhas de alface.

O Todo Poderoso atendeu-lhe, mais uma vez, a vontade e o carneiro voltou à planície na caprichosa alegria de parecer diferente. No entanto, quando alguns cavalos lhe puseram os olhos, não conseguiu melhor sorte. Os eqüinos prenderam-no com os dentes e, depois de lhe comerem a lã, abocanharam-lhe o corpo.

O carneiro correu na direção do Juiz Supremo, gotejando sangue das chagas profundas, e, em lágrimas, gemeu, humilde:

- Meu Pai, não suporto mais!...

Como soluçasse longamente, o Todo Compassivo, vendo que ele se arrependera com sinceridade, observou:

- Reanima-te meu filho! que pedes agora?

O infeliz então replicou em pranto:

- Pai, quero voltar a ser um carneiro comum, como sempre fui. Não pretendo a superioridade sobre meus irmãos. Hoje sei que os meus tosquiadores de outro tempo são meus verdadeiros amigos. Nunca me deixaram em feridas e sempre me deram de comer e beber carinhosamente... Quero ser simples e útil, qual me fizestes, Senhor!...

O Pai sorriu, bondoso, abençoou-o com ternura e falou:

- Volta e segue o teu caminho em paz. Compreendeste, enfim, que meus desígnios são justos. Cada criatura está colocada, por minha Lei, no lugar que lhe compete e, se pretendes receber, aprende a dar."

Então o carneiro envergonhado, mas satisfeito, voltou para o vale, misturou-se com os outros, e daí por diante foi muito feliz.

É sempre bom, é natural sentirmos satisfação ou prazer quando conseguimos fazer algo de útil, quando podemos reconhecer a importância ou a real aplicação daquilo que fizemos. Esta satisfação é conseqüência direta da utilidade que praticamos.

O carneiro da história de Néio Lúcio sentiu isso quando verificou que sua lã era doada para quem precisava. Achava-se muito importante e sentia o prazer natural por ser útil.

Apesar de natural, entretanto, a satisfação pela utilidade não pode, nem deve, desanuviar a visão da realidade fazendo com que pensemos ser os únicos responsáveis pelas boas coisas de que participamos merecendo, portanto, a oportunidade de mudar o mundo à nossa volta, de acordo com os nossos próprios desejos, caprichos ou desígnios.

O fato de nos sentirmos satisfeitos por servir não deve transformar-se em ilusão do orgulho, em vaidade pessoal, em soberba, como se merecêssemos muito além daquilo que nos é concedido.

Muitos lutam na vida por dinheiro, poder ou influência e alguns até por pequenos momentos inúteis, que deveriam transformar-se em alegria, mas que, ao ocorrerem, nada deixam de importante. Acontece assim com todos aqueles que buscam alegria e prazer, por exemplo na vitória de sua escola de samba ou de seu time de futebol ou mesmo em festas e comemorações pelos mais diversos motivos. Espera-se sempre que uma alegria profunda arrebate o coração transbordando em prazer e satisfação íntima. Mas o que se vê é apenas um roldão de paixões, de sensações e emoções que se vão sem nada deixar de útil para o espírito.

Fato idêntico ocorre com os que buscam a ilusão do poder. Lutam por ele e, quando o conseguem, verificam que nada acrescenta em suas vidas, nada melhora em suas formas de ser. Pelo contrário, agrava as responsabilidades assumidas com a visita da ilusão que, muitas vezes, faz com que se sintam orgulhosos, importantes, fora de sua real posição de seres em evolução.

Aceitar sua posição, sem almejar além, é aprender a viver conforme aquele amigo dizia:

- "Ah, companheiro, eu não vou como quero mas vou muito melhor do que mereço.

Significa que devemos ter humildade diante do mundo e consciência de nossa pequenez, de nossa impossibilidade de mudar as coisas apenas com palavras, desejos ou ilusões. Que devemos adquirir a percepção da necessidade de servirmos constantemente para podermos fazer diferença, transformando não só nossa própria vida mas, sobretudo, ajudando a melhorar a vida dos nossos semelhantes. Que devemos procurar os valores imperecíveis do Espírito. Não o pêlo de ouro que pode ser roubado, ou de porcelana que pode ser quebrado, ou de mel que pode ser sugado, ou de alface que pode ser comido. Nossa estrutura deve ser constituída de coisas eternas, que são amealhadas pelo trabalho e que permanecem como resultado de virtudes que nos fazem compreender, com exatidão qual nossa missão, qual nossa razão de ser.

Néio Lúcio observa, ao final da história, que não devemos nos deixar iludir pelos valores perecíveis, que devemos agradecer ao Pai a oportunidade concedida de sermos úteis na sociedade em que vivemos, e que não podemos nos deixar levar pela ilusão que, em geral, traz sofrimento diante do orgulho ferido ou das frustrações da própria vida.

Existem pessoas que, depois de certo tempo, fruto de promoções ou do desenvolvimento de seu trabalho, conseguem atingir cargos hierárquicos ou funcionais elevados. Na posição que chegam a ocupar, podem observar grande número de pessoas que lhes são subordinadas ou que, pela importância ou influência que são capazes de ter, dependem de sua gestão para conseguirem favores ou mesmo para sobreviverem. Nessa posição, é natural que se sintam úteis e importantes. O perigo começa quando aceitam a visita, agasalham e se deixam levar pela idéia de falso poder – a síndrome do todo poderoso - começando a dizer ou a pensar assim: - "Você sabe com quem está falando?"

Quando assumem essa postura, já estão vivendo estado de profunda ilusão e de desconhecimento de si mesmos. A queda quase sempre é dolorosa e não existe aquele que não caia diante dos enganos da vida. Eis que, de repente, seu tempo passa, a necessidade de sua colaboração termina e eles são convidados a deixar suas posições, voltando ao convívio do mundo real. Não têm mais a influência desejada, não têm mais o poder pelo qual tanto lutaram. Contam, unicamente, consigo mesmos, com suas virtudes e fraquezas. Sofrem, sentem-se desiludidos. Onde estão aqueles amigos que viviam a seu redor quando eles estavam por cima? Esses nem sabem mais que aqueles existem. Já passaram.

Chega sempre, para todos, o momento de encarar a própria verdade, aquilo que realmente são ou representam no universo. A busca do conhecimento de si mesmos, é o único caminho capaz de trazer a verdade que liberta os homens de seus estados ilusórios. Como aquele carneiro revoltado, podemos verificar que a melhor sorte está em sabermos manter a pele original, que nos foi confiada, mesmo que seja periodicamente tosquiada, no trabalho de servir com utilidade aos semelhantes. O melhor é nos sentirmos felizes sendo simples e humildes, ao invés de orgulhosos e soberbos. A humildade reveste o ser de forças que impedem a visita do orgulho ilusório. Os desígnios do Pai são sempre justos.

E nós meu irmão, como vamos? Vamos bem? Vamos como queremos? Claro que não! Mas, com certeza, vamos muito melhor do que merecemos!

Quando formos capazes de perceber isto, já estaremos a caminho da verdade que liberta. Significará que, embora não vivamos como desejávamos viver, lutamos diariamente para vencer nossas fraquezas e imperfeições. Já exercitamos a tomada de consciência do que representamos e buscamos participar, com toda potencialidade que temos, da Criação. Compreendemos que tudo o que possuímos foi concedido e que devemos rogar forças e amparo, diariamente, para conseguirmos superar nossas fraquezas, tornando-nos, cada vez mais conscientes no mundo em que vivemos.

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