A MORATÓRIA
A evolução humana dá-se através de sucessivas encarnações. O espírito necessita da matéria para a conquista de habilidades, aptidões, conhecimento e experiência. Embora, quando na erraticidade, enquanto aguarda novas oportunidades na matéria, o espírito aprenda e amplie suas percepções, somente na matéria consegue amealhar a virtude necessária. É na ação, é na experiência, é na vivência que os valores são adquiridos..
A frase seguinte consegue representar bem essa idéia: "somente aquele que sobe a serra pode vislumbrar a visão de cima do monte". Significa que na estrada evolutiva temos que agir, que caminhar, para podermos alcançar a plenitude de nossas faculdades e a plenitude dos valores espirituais. E esta estrada se desdobra sempre na matéria.
Partindo desta premissa, poder-se-ia dizer que, como espíritos milenares, somos, hoje, melhores do que ontem, e deixamos em nossas passagens terrenas experiências boas e experiências más que sempre nos ensinam algum valor necessário.
Como fomos criados em Espírito simples e ignorantes, todos, sem exceção, devemos encontrar o melhor caminho para a escalada do monte que há de nos permitir vislumbrar a verdade.
Muitas vezes dizemos, sem pensar, que nossas dores e aflições são um castigo de Deus para as faltas cometidas. Essa é uma forma simplista de pensar que nos leva à percepção de um Deus que castiga e cobra, ao invés de um Deus de amor, justiça e misericórdia que ensina, esclarece e eleva seus filhos.
Esta deformação no pensamento origina-se do fato de querermos entender o Criador à nossa imagem e semelhança, como aquele senhor que, apesar de amoroso, julga e pune seus filhos para melhor educá-los.
Na realidade, Deus está em todas as coisas e, portanto, está em nós, induzindo-nos constantemente ao ajustamento com a lei do amor, justiça e caridade.
O livre-arbítrio que possuímos e que nos diferencia das outras espécies, permite-nos escolher a trajetória desejada, as lições que precisamos aprender e as experiências que queremos vivenciar. Assim sendo, quando algo não vai como desejamos, não é por que Deus nos impõe algum castigo, mas porque é a conseqüência natural daquilo que escolhemos para viver, das ações que escolhemos para empreender.
Ao contrário do castigo, a misericórdia de Deus permite ao homem fazer e refazer suas próprias construções na vida, exercitar, corrigir e crescer através de oportunidades sempre renovadas. Suas encarnações sucessivas têm esta finalidade e bem demonstram o zelo que o Criador tem por todas as suas criaturas. O que ocorre conosco, em geral, é que, apesar disso tudo, não estamos ainda aptos para compreender o dispositivo da justiça divina que não têm exceções à regra e atinge a todos da mesma maneira.
Dessa forma, como homens de pouca fé, reclamamos da sorte, reclamamos da vida e nos impacientamos quando as coisas que ocorrem não atendem à nossa vontade. A pouca fé é que induz as criaturas a falharem em sua observação e a não compreenderem os valores espirituais. Quando falamos em resignação, paciência, tolerância, perseverança, disciplina, falamos de virtudes que devem ser aprendidas para que o homem se conheça melhor e entenda sua verdadeira destinação. Deus não castiga, Deus não cobra, Deus oportuniza e permite, em sua infinita misericórdia, o crescimento contínuo do Espírito.
Para nos ajudar a compreender melhor essas idéias, selecionamos do livro a Vida Escreve, do Espírito Hilário Silva, uma história, intitulada "A Moratória".
Conta nos assim Hilário Silva:
Vicente Curi, o empreiteiro de obras, amanheceu exasperado. Enfermo. Abatido. O corpo bambeara e a cabeça parecia-lhe um vaso em fogo.
Justamente naquele dia.
De noite, marcara o relógio. Horário certo de levantar. Quatro operários esperavam-no para a necessária demolição do velho prédio que adquirira em bairro distante.
Precisava satisfazer o serviço urgente em reconstruções diversas. Via-se, porém, cansado, febril.
Além disso, vomitava substância amarga.
Tentara erguer-se. Inutilmente. A esposa dissera ser "melhor chamar o médico".
Vicente reagiu, obstinado, Carro de clínico à porta, alarme certo.
Piorava a olhos vistos.
A idéia do serviço marcado castigava-lhe o pensamento. Contrariava-se. Apesar do problema orgânico, preferia ter viajado, a demorar-se na cama.
Dona Mercedes, a esposa, pede-lhe calma. É indispensável confiar na Divina Bondade.
Às nove horas, Cesário, um dos cooperadores, vem pedir providências. Atacando o serviço, ele e os companheiros assistiram ao inesperado. A casa velha caindo aos pedaços não agüentou o ataque das picaretas e ruíra de vez.
Valmiro, o operário mais jovem tivera os pés gravemente feridos, ficando impossibilitado para o trabalho.
O empreiteiro, agora, não mais gemia.
- Onde a providência Divina que não me ajuda? – gritava frenético.
Badalavam dez horas.
Entulhado de comprimidos, Vicente pede à esposa a injeção antitóxica guardada no armário. Era a última da pequena série que deixara incompleta.
Tanto tempo passara que Dona Mercedes julgou prudente comprar uma nova caixa em farmácia vizinha.
- Não temos – falara o moço de vendas. E acrescentou: - Agora é remédio raro.
O enfermo, no entanto, não se conformava.
Queria a injeção. Velha assim mesmo. Entretanto, buscando ajustá-la à agulha, D. Mercedes viu cair no piso, perdendo-se o seu conteúdo.
Vicente se enraiveceu, enquanto a mulher lhe falava na Providência Maior.
Alguém lembrou o telefone para recurso à outra farmácia. O doente, amuado, recusou: não queria mais a medicação.
Mais tarde, porque sentisse dores nas costas, Dona Crescência, antiga enfermeira da vizinhança falou em aplicação de ventosas.
Vicente lembrou-se do avô, sob ventosa acima dos rins. E aceitou-as.
Copos de vidro, algodão e fósforo foram trazidos ao quarto. Quando faziam a aplicação das ventosas um algodão inflamado escapa das mãos da bondosa amiga.
Comunica-se o fogo aos lençóis finos. Vicente é retirado pelas senhoras. Ultrapassa os limites do silêncio correto. Protesta indignado. Fala asneiras. Do colchão incendiado, porém, sai correndo um enorme escorpião, mostrando dardo em riste.
Dona Mercedes entra em luta perseguindo o lacrau que lhe foge ao chinelo, e fala, mais uma vez, sobre o Amparo Divino.
O marido lamenta-se desesperado.
Sente-se perseguido. E reclama:
- Parece que os urubus pousaram em mim.
Quase noite, embora melhor, mostra-se Vicente mais inquieto.
Relaciona amarguras e prejuízos.
Dona Mercedes pede o concurso de Souto, amigo da casa, para conduzi-lo ao templo Espírita.
Vicente precisa de socorro moral. Convencera-o a valer-se do passe de reconforto.
Souto, ao telefone, promete colaborar, e, na hora certa, surge sorrindo. Está pronto.
O enfermo toma-lhe o braço, mas, talvez porque se movimentasse com lentidão, o ônibus esperado não espera por eles. Pára um segundo, e zarpa adiante.
- Era o que faltava! Diz Vicente, enervado.
Não quer mais o passe. O amigo, entretanto, insiste. Dona Mercedes insiste.
Tomam um táxi. Chegam ao templo indicado, alcançando o recinto no momento em que iam fechar a porta.
São os últimos.
Antes deles, porém, um moço pálido entra à pressa e roga ao diretor da reunião, em voz alta, uma oração pelas vítimas de um desastre ocorrido momentos antes.
O ônibus que Vicente perdera capotara em local próximo.
Fora feito o balanço. Quatro mortos e dez feridos...
Iniciava-se a prece de abertura.
Por não poder conversar, pensa Dona Mercedes mais uma vez, no Infinito Amor de Deus. E, com efeito, no momento do passe, o Irmão Luís, orientador espiritual das tarefas em curso, incorpora-se em Dona Cristina, a médium habitual, e diz a Vicente, alarmado:
- Meu amigo, não reclame. Por quatro vezes, hoje, rebelou-se contra a Providência Divina, ao passo que a Divina Providência o arrebatou às garras da morte por quatro vezes. Sua ficha de espírito devedor marcava, para hoje, a desencarnação rude e violenta. Você esteve à bica de ser esmagado pelo prédio que veio a cair; de ser envenenado pela ampola que trazia líquido alterado; de ser picado pelo escorpião que o seguira no próprio leito, e de ser estrangulado na engrenagem do coletivo menos feliz... Entretanto, Vicente, em atendimento aos seus gestos de caridade, amigos espirituais do caminho advogaram-lhe a causa. Você mereceu amparo, na Lei, como alguém que consegue moratória no banco. Volte para casa e descanse a cabeça teimosa. O socorro de Deus nem sempre tem a forma de flor ou a rutilância da luz. Volte e agradeça os contratempos e dissabores do dia. Serenidade é remédio em cada remédio.
Vicente enxugou os olhos úmidos...
Reconciliara-se consigo mesmo, e, tornando ao leito, que recebia agora por benção doce e reconfortante, planejou, satisfeito, a renovação de sua vida...
Como o processo evolutivo é de aprendizado e não de cobrança, sempre que o homem demonstrar, por suas intenções, por suas obras, por suas ações, que já começou a compreender sua verdade, Deus determina que a moratória lhe seja aplicada e que suas provas cessem para que possa exercitar sua vontade no sentido do amor. E quanto mais o discípulo agir na caridade, mais luz lhe será proporcionada e mais força lhe será enviada para suas experiências de renovação.
Nossos guias, nossos protetores, nossos mestres espirituais cuidam sempre para que a luz que começa a brilhar possa ser alimentada pelo combustível da esperança e impedem que os tropeços do caminho possam nos desviar dos rumos da renovação. A luta que travamos, entre o passado delituoso que nos é próprio e o futuro luminoso que nos aguarda, é sempre acompanhada por eles. A ajuda e o amparo são constantes desde que em nossos corações e em nossas ações estejam identificadas as verdadeiras intenções de paz e de amor.
Assim, caro companheiro de jornada terrena, quando te sentires mais impaciente porque as coisas não estão caminhando como desejas, observa a moratória de Deus e acredita que as coisas estão certas e a alinhadas com aquilo de que necessitas.
Coloca-te à disposição do trabalho, agradece a ventura da vida, pede por todos os que sofrem e não compreendem e busca novas formas para continuares a escalada do monte que te é destinado. Crê que todas as coisas estão certas pela vontade do Pai, que é infinitamente amoroso e justo.
Novas oportunidades surgem a cada dia, novas tarefas se apresentam a cada hora. Vive, experimenta, caminha e te sentirás recompensado pela tarefa e pela felicidade de servir.