VOLTAR - JONAS Música: Traumerei - Schuman
LAÇOS DE DESARMONIA
A hierarquia terrestre é baseada no poder, na influência e na autoridade provenientes de convencionalismos, de títulos e de posse de valores materiais, muitas vezes obtidos pela força e pelo desrespeito ao semelhante. Nesta hierarquia, os homens assumem postos e cargos em função de sua capacidade de atender aos interesses materiais estabelecidos e priorizados, sem levar em conta as condições de mérito real que cada um possa ter.
As instituições humanas são fundamentadas nessa hierarquia, definindo as relações de poder e de obediência que devem nortear suas atividades de convivência terrestre. "Manda quem pode, obedece quem tem juízo" é uma prática de aplicação muito comum.
A hierarquia espiritual, entretanto, não se baseia em convencionalismos como na Terra. É baseada em valores morais adquiridos e incorporados a cada ser. A ascendência moral é irresistível, sendo identificada com facilidade pela luz que cada um consegue irradiar em função do amor e do desprendimento que possui.
O poder terrestre, portanto, não tem significado no mundo espiritual, onde não existem títulos ou honrarias, apenas graus de evolução diferenciados. No plano espiritual, humildade é luz, é amor, é autoridade, é energia criadora.
O orgulho exacerbado e a ilusão do poder cegam os homens para sua verdadeira posição, levando a sofrimentos imensos no plano espiritual onde se defrontam com sua realidade e percebem-se diante da hierarquia do amor. Na espiritualidade, os seres desencarnados agrupam-se em colônias, em cidades, segundo a lei da afinidade, conforme o grau de elevação que tenham atingido. Nosso mundo material é um pálido reflexo dessas colônias espirituais.
Quando encarnados, presos ao pesado fardo da matéria, todos os espíritos aparentam ser iguais, sendo obrigados a conviver uns com os outros, independente do grau de evolução que já tenham alcançado. Pela lei do amor cabe àqueles que já possuem luz em seus espíritos dividi-la com seus semelhantes, ajudando-os a aprender suas lições e a galgar estágios renovados de compreensão e percepção que os permitam evoluir em espiritualidade, isto é, em humildade e amor.
A postura mais recomendada para quem deseja galgar as verdadeiras hierarquias do plano espiritual é a do humilde aprendiz. A que nos leva a pensar como Platão que dizia: "só sei que nada sei; só sei que nada sou". Ou como Newton - renomado físico e matemático - que afirmava: "tudo o que sei não vale mais do que uma gota no oceano do conhecimento".
Cabe-nos então: aprender a cada instante da vida, nas adversidades e nos instantes de alegria relativa, nas ações mais simples e nas situações mais complexas; aprender a observar o mundo e as criaturas como companheiras do caminho - também em processo de aprendizado -, percebendo-se pequeno diante da Criação; buscar vencer a própria ignorância espiritual pelo exercício do amor, ajudando o seu semelhante a também vencer a sua.
No caminho do aprendizado, a ofensa não tem sentido como tal, mas como prova e como oportunidade de identificar os níveis de ignorância com as quais convivemos. Por isto, o perdão das ofensas tem que ser incondicional e a misericórdia uma premissa de vida. Esses são requisitos básicos do caminho evolutivo. Aquele que se deixar levar pela ofensa ou pela contrariedade perde a oportunidade de aprender, de se iluminar, de vencer sua ignorância natural.
Quando Jesus nos chama ao serviço, o faz porque é a grande oportunidade para o desenvolvimento da tolerância, para o exercício da paciência, para a aquisição da perseverança e para o estabelecimento de estados mais profundos de humildade, respeito e doação. O valor do serviço está intimamente ligado ao desenvolvimento e à aquisição desses valores, transformados em virtudes espirituais eternas.
O servidor invigilante, entretanto, corre o risco de quedas, quando, de forma desavisada não compreende a necessidade do aprendizado daqueles valores, aceitando a visita e a incorporação do orgulho, da exaltação, da depressão, do sentimento de menos valia ou mesmo da inveja. Ao dar guarida a esses inimigos da evolução espiritual, o homem fracassa, perdendo a oportunidade de crescer, mantendo-se prisioneiro da ilusão de si mesmo.
Aquele que no mundo está habituado a ser servido corre riscos bem maiores de se deixar vencer pela preguiça, pela indolência, pela prepotência, pela ilusão do orgulho, pela iniqüidade. A prova de ser servido é muito mais difícil do que a do servidor, pois induz com mais facilidade à percepção falsa da verdade, cegando pensamentos e ações, permitindo se prejudique, muitas vezes, àqueles com quem convivemos e de quem cobramos dedicação, obediência e submissão.
Uma das conseqüências mais comuns para aqueles que se habituam a serem servidos é correr o risco de manter sua auto-estima elevada, isto é, acima dos valores do equilíbrio, e dar guarida à ira, à cólera, à exaltação ou à intempestividade, armas destruidoras e desagregadoras da harmonia universal, causas primárias de muitas doenças físicas e morais.
A história que apresentamos a seguir intitula-se "O Grito de Cólera" e foi selecionada no livro Alvorada Cristã, do Espírito Néio Lúcio. Este conto nos ajuda a perceber as tristes conseqüências da intemperança e do desequilíbrio emocional em nossas vidas.
Conta-nos assim, Néio Lúcio:
Lembra-se do instante em que gritou fortemente, antes do almoço?
Por insignificante questão de vestuário, você pronunciou palavras feias em voz alta, desrespeitando a paz doméstica.
Ah! Meu filho, quantos males foram atraídos por seu gesto de cólera!...
A mamãe, muito aflita, correu para o interior, arrastando atenções de toda a casa. Voltou-lhe a dor de cabeça e o coração tornou a descompassar-se.
As duas irmãs, que cuidavam da refeição, dirigiram-se precipitadamente para o quarto, a fim de socorrê-la, e duas terças partes do almoço ficaram inutilizadas.
Em Razão das circunstâncias provocadas por sua irreflexão, o papai, muito contrariado, foi compelido a esperar mais tempo em casa, chegando ao serviço com grande atraso.
Seu chefe não estava disposto a tolerar-lhe a falta e recebeu-o com repreensão áspera.
Quem o visse, erecto e digno, a sofrer essa pena, em virtude da sua leviandade, sentiria compaixão, porque você não passa de um jovem necessitado de disciplina, e ele é um homem de bem, idoso e correto, que já venceu muitas tempestades para amparar a família e defendê-la. Humilhado, suportou as conseqüências de seu gesto impulsivo, por vários dias, observado na oficina qual se fora um menino vadio e imprudente.
Os resultados de sua gritaria foram, porém, mais vastos.
A mãezinha piorou e o médico foi chamado.
Medicamentos de alto preço, trazidos à pressa, impuseram vertiginosa subida às despesas, e o papai não conseguiu pagar todas as contas de armazém, farmácia e aluguel de casa.
Durante seis meses, toda a sua família lutou e solidarizou-se para recompor a harmonia quebrada, desastradamente, por sua ira infantil.
Cento e oitenta dias de preocupações e trabalhos árduos, sacrifícios e lágrimas! Tudo porque você, incapaz de compreender a cooperação alheia, se pôs a berrar, inconscientemente, recusando a roupa que lhe não agradava.
Pense na lição, meu filho, e não repita a experiência.
Todos estamos unidos, reciprocamente, através de laços que procedem dos desígnios divinos. Ninguém se reúne ao acaso. Forças superiores impelem-nos uns para os outros, de modo a aprendermos a ciência da felicidade, no amor e no respeito mútuos.
O golpe do machado derruba a árvore de vez. A ventania destrói um ninho de momento para o outro.
A ação impensada de um homem, todavia, é muito pior.
O grito de cólera é um raio mortífero, que penetra o círculo de pessoas em que foi pronunciado e aí se demora, indefinidamente, provocando moléstias, dificuldades e desgostos.
Por que não aprende a falar e a calar, a benefício de todos?
Ajude em vez de reclamar.
A cólera é força infernal que nos distancia da paz divina.
A própria guerra, que extermina milhões de criaturas, não é senão a ira venenosa de alguns homens que se alastra, por muito tempo, ameaçando o mundo inteiro.
No Sermão da Montanha, Jesus traz uma receita de vida para todos os que buscam a evolução do espírito:"Bem aventurados os mansos porque eles herdarão a Terra".(Mateus V, versículo 5)
Estabelecer a harmonia com o universo é a missão de todo homem e ela está inserida na lei de amor, justiça e caridade. A harmonia com o Universo requer a humildade que eleva e auxilia o aprendizado e a aquisição da sabedoria divina. Mas só existe harmonia quando há paz, não só no mundo exterior que nos envolve, mas, sobretudo, em nosso mundo interior. A ira, a cólera, a exaltação e o orgulho são agentes perturbadores da harmonia universal e os causadores das dores do homem. São filhos diretos do egoísmo que ainda habita o coração do homem.
A cólera atua como um estilete lançado contra as criaturas, prendendo agressor e agredido por um fio muito tênue, mas extremamente resistente, feito de ressentimento, de desamor e de ódio. Agressor e agredido passam a vibrar no mesmo diapasão de desarmonia, tornando-se sujeitos a toda sorte de desequilíbrios físicos e psíquicos. Este fio é um laço, um elo que contém energias vibratórias desarmonizadas que acarretam dor e sofrimento para aqueles que gravitam em torno dele.
A ira desestabiliza o organismo perispiritual, envenenando o ser com fluidos nocivos à sua saúde física e mental. A ira contraria frontalmente a humildade e a caridade, ferindo, portanto, a lei de Deus. Só o amor é capaz de quebrar a cadeia de elos vibratórios constantes desse laço de desarmonia gerado pela intempestividade e pela exaltação dos estados coléricos.
A desarmonia não provém apenas das palavras mal pronunciadas através de energia oral exacerbada, mas também pode se originar da palavra escrita que igualmente pode ferir, magoar, perturbar e desequilibrar aquele que a recebe. Quando irados, falamos ou escrevemos o que não queremos, o que pensamos e o que não pensamos e nos tornamos julgadores, rotuladores e agressores de nossos semelhantes, apenas para atender aos imperativos do orgulho ferido ou da ilusão de mais valia.
Oração e vigilância são os caminhos para a superação desta fraqueza que ainda habita em nós. Oração para nos ligar com as forças sublimes que nos ajudam e nos harmonizam com o Universo. Vigilância para percebermos a presença da visitadora inconveniente que prepara seu bote para nos dominar.
O poder não é uma voz que se levanta ou se exalta cobrando atendimento e obediência, mas uma luz que se estabelece e se irradia através do exemplo de humildade, resignação e disciplina perante os desígnios de Deus.
"Porquanto todo aquele que se exaltar será humilhado e aquele que a si mesmo se humilhar será exaltado"(Lucas XIV, versículo 11) - esta é a conseqüência da aplicação da lei de amor, justiça e caridade.