FÉ ESPERANÇA E CARIDADE
O Espiritismo é uma doutrina religiosa que aparentemente nada exige de seus seguidores, a não ser a tomada de consciência de si próprios. Não existem dogmas, pecados, punições ou recompensas eternas, inferno ou paraíso. Cada qual gravitará nas esferas vibratórias com as quais se afinizar.
Mas, embora pareça nada exigir, quando respeita o livre-arbítrio de cada um, requer de seus seguidores o desenvolvimento da fé raciocinada, baseada na lógica científica, para que a esperança de evolução se faça presente. Mas fé e esperança apesar de serem premissas necessárias para balizarem os caminhos e as tendências, nada representam de fato em termos evolutivos. Precisam da ação e do desprendimento, presentes na caridade, para assegurarem a evolução, o aumento da percepção, a libertação dos grilhões das paixões inferiores que prendem os seres nas mais baixas camadas vibratórias .
A fé espírita é a crença, é a convicção, é a certeza naquilo que a doutrina espírita, fundamentada no cristianismo, apresenta. Esta crença traduz-se em valores morais, responsáveis pela determinação do caminho a ser trilhado por cada um, segundo sua própria percepção e sua liberdade de escolher. Fé que não se fundamenta em princípios ou valores morais acarreta o desenvolvimento de práticas nocivas à vida em sociedade que caracteriza o homem, resultando sempre em estradas de sofrimento e dor. Assim, ter a certeza da existência de Deus, como causa primária de todas as coisas, crer em Sua lei de amor, justiça e caridade, compreender a essência divina, que habita em cada ser, são premissas importantes e necessárias para a tomada de consciência do papel que o homem representa no universo que o abriga.
A esperança é conseqüência da fé. Enquanto a fé baliza o caminho, a esperança determina a forma de percorrê-lo. Aquele que não crê em algo dificilmente tem a convicção ou a certeza de poder colher alguma coisa ao longo da estrada. A crença em Deus e em Suas leis reforça a esperança, gerando a certeza interior de evolução contínua e concitando o homem a caminhar com paciência, com resignação, com constância de propósitos, com perseverança. A esperança ampara os homens diante das dores e vicissitudes que os visitam, forjando a têmpera, a fortaleza espiritual. Aqueles que dizem que têm fé mas se desesperam não crêem de fato. Aqueles que dizem que o amor é o grande agente da evolução espiritual mas se deixam abater quando visitados pela ira, pelo ressentimento, pelo ciúme, pelo orgulho, pela depressão, pela prepotência, evidenciam que têm pouca crença naquilo que dizem e que nada conseguem esperar além do imediatismo da vida, sofrendo com intensidade os seus reveses.
A confiança na doutrina espírita deve ser capaz de mover o homem para uma batalha contínua contra suas tendências inferiores, herança de seus atavismo milenares, forçando-o à tomada de consciência de si mesmo, ao entendimento de seu papel na sociedade em que vive, começando pela própria família. Ilude-se aquele pensa que pode viver isolado. O homem sempre interage, direta ou indiretamente, com seus semelhantes e, portanto, está sujeito aos conflitos naturais provenientes das diferenças individuais.
A doutrina espírita induz à esperança do caminho da virtude, da escalada espiritual de crescimento do ser. Além das consciências individual e coletiva, o homem necessita desprender-se de si mesmo e reconhecer seu papel no universo. Sua essência divina impulsiona-o para a participação na criação.
O entendimento desses conceitos torna-se importante. Eles são necessários para o aumento da percepção e para a ampliação da consciência de todo aquele que se candidata à espiritualização. Mas, apesar de necessários e de poderem ser adquiridos pelo estudo e pelo desenvolvimento da lógica do raciocínio, não são suficientes para libertar o ser da influência do pesado fardo da matéria. O amor tem que estar presente nas relações do homem com o mundo. Não aquele amor inerte, de adoração passiva, nem aquele amor- apego que escraviza, mas o amor-ação caracterizado pela caridade que liberta e desprende as criaturas dos grilhões materiais.
Para nos ajudar a refletir sobre esses conceitos, selecionamos do livro Contos e Apólogos, do Irmão X, um conto intitulado "A Ficha".
Conta-nos assim o Irmão X:
João Mateus, distinto pregador do Evangelho na Seara espírita, na noite em que atingiu meio século de idade no corpo físico, depois de orar enternecidamente com os amigos, foi deitar-se. Sonhou que alcançava as portas da Vida Espiritual, e, deslumbrado com a leveza de que se via possuído, intentava alçar-se para melhor desfrutar a excelcitude do Paraíso, quando um funcionário da Passagem Celeste se aproximou, a lembrar-lhe, solícito:
- João, para evitar qualquer surpresa desagradável no avanço, convém uma vista d’olhos em sua ficha...
E o viajante recebeu primoroso documento, em cuja face leu, espantadiço:
- João Mateus.
- Renascimento na Terra em 1904.
- Berço manso.
- Pais carinhosos e amigos.
- Inteligência preciosa.
- Cérebro claro.
- Instrução digna.
- Bons livros.
- Boa saúde.
- Invejável noção de conforto.
- Sono calmo.
- Excelente apetite.
- Seguro abrigo doméstico.
- Constante proteção espiritual.
- Nunca sofreu acidentes de importância.
- Aos 20anos de idade, empregou-se no comércio.
- Casou-se aos 25, em regime de escravização da mulher.
- Católico romano até os 26.
- Presenciou, sem maior atenção, 672 missas.
- Aos 27 de idade, transferiu-se para as fileiras espíritas.
- Compareceu a 2195 sessões de Espiritismo, sob a invocação de Jesus.
- Realizou 1602 palestras e pregações doutrinárias.
- Escreve cartas e páginas comoventes
- Notável narrador.
- Polemista cauteloso.
- Quatro filhos.
- Boa mesa em casa.
- Não encontra tempo para auxiliar os filhos na procura do Cristo.
- Efetuou 106 viagens de repouso e distração.
- Grande intolerância para com os vizinhos.
- Refratário a qualquer mudança de hábitos para a prestação de serviço aos outros.
- Nunca percebe se ofende o próximo, através da sua conduta, mas revela extrema suscetibilidade ante a conduta alheia.
- Relaciona-se tão-somente com amigos do mesmo nível.
- Sofre horror às complicações da vida social, embora destaque incessantemente o imperativo da fraternidade entre os homens.
- Sabe defender-se com esmero em qualquer problema difícil.
- Além dos recursos naturais que lhe renderam respeitável posição e expressivo reconforto doméstico, sob o constante amparo de Jesus, através de múltiplos mensageiros, conserva bens imóveis no valor de Cr$600000,00 e guarda em conta de lucro particular a importância de Cr$302000,00.
- Para Jesus, que o procurou na pessoa de mendigos, de necessitados e doentes, deu durante toda vida 90 centavos.
- Para cooperar no apostolado do Cristo, já ofereceu 12 cruzeiros em obras de assistência social.
- Débito...
Quando ia ler o item referente às próprias dívidas, fortemente impressionado, João acordou.
Era manhãzinha...
À noite, bem humorado, reuniu-se aos companheiros relatando-lhes a ocorrência.
Estava transformado, dizia. O sonho modificara-lhe o modo de pensar. Consagrar-se-ia doravante a trabalho mais vivo no movimento espírita. Pretendia renovar-se por dentro, reuniria agora palavra e ação.
Para isso, achava-se disposto a colaborar substancialmente na construção de um lar destinado à recuperação de crianças desabrigadas que, desde muito, desejava socorrer.
A experiência daquela noite inesquecível era, decerto, um aviso precioso. E, sorridente, despediu-se dos irmãos de ideal, solicitando-lhes novo reencontro para o dia seguinte. Esperava assentar as bases da obra que se propunha levar a efeito.
Contudo, na noite imediata, quando os amigos lhe bateram à porta, vitimado por um acidente das coronárias, João Mateus estava morto.
O apóstolo Paulo nos dá uma indicação do amor-caridade quando nos diz que podemos desenvolver todos os dons, todos os talentos, toda a inteligência, todo conhecimento e aprender a fazer todas as coisas, mas que, se não tivermos caridade nada seremos.
A fé e a esperança precisam ser consubstanciadas pelas obras, pelas ações voltadas ao semelhante. Aquele que diz amar a Deus porque se sente pequeno e compreende Seus desígnios e não exercita a caridade em suas manifestações mais simples, mas, pelo contrário, apega-se aos valores da matéria, não ama ao próximo como a si mesmo e, portanto, não ama a Deus. Intitula-se humilde sem o ser.
De nada valem a fé sem obras, a esperança sem resignação e misericórdia, o conhecimento sem ação de desprendimento. Em geral, levam ao apego que, contrariamente à caridade, prendem o homem, ancorando sua evolução espiritual em estágios inferiores, agravando sua conduta perante a Criação.
Assim ocorreu com João Mateus. Espírita praticante, inteligência brilhante, orador emérito, doutrinador competente, sempre tivera o amparo da espiritualidade. Nunca tivera grandes dificuldades na vida. Era participante ativo na casa espírita, assim como muitos de nós.
Mas, ao se defrontar com a sua própria verdade, às portas do mundo espiritual, pode constatar o quanto tinha recebido e o quão pouco tinha feito. Sua dívida era imensa, pois o que fornecera de si mesmo para o mundo era muito pouco diante do investimento que o plano espiritual fizera em seu favor.
Nas ações do dia-a-dia, era intolerante, suscetível, segregador e, de certa forma, avarento. Mas usava bem suas palavras para disseminar conceitos e ações.
Analisando a moral desta história, percebemos que de nada adianta falarmos, entendermos e acreditarmos nos princípios evangélicos sem agirmos conforme esses preceitos, sem combatermos a desigualdade que ainda habita em nós.
O conteúdo desta mensagem deve ser meditada por todos os que se dispõem ao trabalho na seara de Jesus. Será que conseguiríamos reconhecê-Lo na figura do mendigo, do doente, do irmão necessitado, do carente de amparo e de esclarecimento?
Nossa conta corrente está aberta nos céus. Nossa ficha está sendo preenchida. Que possamos completá-la com virtude e amor, aprendendo a nos desprender do apego que nos é próprio.
Fé sem obras, esperança sem resignação, trabalho sem doação não contam como crédito para abater o investimento que a espiritualidade fez em nós.
Temos que exercitar a caridade, aprendendo a perceber o semelhante, enxergando nele um irmão do caminho, carente de tudo aquilo de que nós também precisamos. Através da caridade reforçamos a esperança e justificamos a fé. Através das obras seremos capazes de melhorar o mundo.