JONAS, O CONTADOR DE HISTÓRIAS

 

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E ATÉ O POUCO QUE TEM LHE SERÁ TIRADO

Todos temos dons diferentes. Recebemos do Criador possibilidades de desenvolvimento diferindo uns dos outros. Deus reparte os dons em função da capacidade de uso adquirida, e efetivamente demonstrada por cada criatura. Cada qual aprende, percebe e desenvolve os talentos recebidos de forma própria. As diferenças individuais verificadas entre os homens, fruto do uso que fazem de seu livre-arbítrio, são muito grandes. Uns caminham e percebem a verdade mais rápido do que outros, conseqüência da experiência vivida, e nem todos passam pelas mesmas provas.

Apesar de termos sido criados simples e ignorantes e de termos recebido as mesmas oportunidades, nosso crescimento espiritual se dá de forma diferente. Cada um aproveita as oportunidades que lhe são concedidas conforme as capacidades de percepção e de ação que consegue desenvolver.

Enquanto uns buscam prestígio, poder, dinheiro, autoridade, influência, outros buscam conhecimento, e há aqueles que buscam sabedoria. Cada um, a seu turno, tem o desenvolvimento que lhe é próprio, galgando estágios diferentes na vida material passageira. Espiritualmente falando, entretanto, nem sempre conseguem caminhar no sentido da moralidade. Mas a lei da justiça é a mesma para todos: "a cada um será dado conforme suas obras". Essas obras serão sempre o efeito da vontade que dispusermos para atender aos desígnios de crescimento espiritual que nos foram concedidos.

Não é facil perceber o significado das palavras de Jesus quando nos diz, através de seus evangelistas: "... e àquele que muito tem, muito lhe será dado, e àquele que pouco tem, até o pouco que tem lhe será tirado".

Para melhor compreendermos o significado dessas palavras, selecionamos no livro Estante da Vida, escrito pelo Espírito Irmão X, uma narrativa intitulada "Estudo na parábola". Trata-se de uma apresentação moderna da "Parábola dos Talentos", embora seu conteúdo e sua mensagem permaneçam intocados.

Os talentos são dons entregues às pessoas para serem multiplicados e compartilhados com seus semelhantes. Todos recebemos dons apropriados à obra que nos cabe fazer.

Esta narrativa é particularmente importante para aqueles que professam, ou estão começando a professar o Espiritismo, ou mesmo para aqueles que, embora não o professem, já têm contato com os fundamentos desta doutrina renovadora.

Conta-nos assim o Irmão X:

Comentávamos a necessidade da divulgação da Doutrina Espírita, quando o Rabi Zoar Ben Ozias, distinto orientador israelita, hoje consagrado às verdades do Evangelho no Mundo Espiritual, pediu licença a fim de parafrasear a parábola dos talentos contada por Jesus, e falou simples:

-"Meus amigos, o Senhor da Terra, partindo em caráter temporário, para fora do mundo, chamou três dos seus servos e, considerando a capacidade de cada um, confiou-lhes alguns dos seus próprios bens, a título de empréstimo, participando-lhes, que os reencontraria, mais tarde, na Vida Superior...

Ao primeiro transmitiu o Dinheiro, o Poder, o Conforto, a Habilidade e o Prestígio; ao segundo concedeu a Inteligência e a Autoridade, e ao terceiro entregou o Conhecimento Espírita.

Depois de longo tempo, os três servidores assustados e vacilantes compareceram diante do Senhor para as contas necessárias.

O primeiro avançou e disse:

-"Senhor, cometi muitos disparates e não consegui realizar-te a vontade, que determina o bem para todos os teus súditos, mas, com os cinco talentos que me puseste nas mãos, comecei a cultivar, pelo menos com pequeninos resultados, outros cinco, que são o Trabalho, o Progresso, a Amizade, a Esperança e a Gratidão, em alguns dos companheiros que ficaram no mundo... Perdoa-me, ó Divino Amigo, se não pude fazer mais!...

O Senhor respondeu tranqüilo:

- Bem está servo fiel, pois não erraste por intenção... Volta ao campo terrestre e reinicia a obra interrompida, renascendo sobre o amparo das afeições que ajuntaste.

Veio o segundo e alegou:

- Senhor, digna-te desculpar-me a incapacidade... Não te pude compreender claramente os desígnios que preceituam a felicidade igual para todas as criaturas e perpetrei lastimáveis enganos. Ainda assim, mobilizei os dois valores que me deste e, com eles, angariei outros dois que são a Cultura e a Experiência para muitos dos irmãos que permanecem na retaguarda...

O Excelso Benfeitor replicou satisfeito:

- Bem está, servo fiel, pois não erraste por intenção... Volta ao campo terrestre e reinicia a obra interrompida, renascendo sobre o amparo das afeições que ajuntaste.

O terceiro adiantou-se e explicou:

- Senhor, devolvo-te o Conhecimento Espírita, intocado e puro, qual o recebi de tua munificência... O Conhecimento Espírita é Luz, Senhor, e com ele aprendi que a tua Lei é dura demais, atribuindo a cada um conforme as próprias obras. De que modo usar uma lâmpada assim, brilhante e viva, se os homens na Terra estão divididos por pesadelos de inveja e ciúme, crueldade e ilusão? Como entregar o clarão de tua verdade sem ferir ou incomodar? Como incomodar ou ferir sem trazer deploráveis conseqüências para mim próprio? Sabes que a Verdade, entre os homens, cria problemas onde aparece... Em vista disso, tive medo da tua Lei e julguei como sendo a medida mais razoável para mim o acomodar-me no sossego de minha casa.... Assim pensando, ocultei o dom que me recomendaste aplicar, e restituo-te semelhante riqueza sem o mínimo toque de minha parte.

O sublime Credor, porém, entre austero e triste, ordenou que o tesouro do Conhecimento Espírita lhe fosse arrancado e entregue, de imediato, aos dois colaboradores diligentes que se encaminhariam para a Terra, de novo, declarando, incisivo:

- Servo infiel, não existe para tua negligência outra alternativa senão a de recomeçares toda a tua obra, pelos mais obscuros entraves do princípio...

- Senhor!... Senhor!... - chorou o servo displicente - Onde a tua eqüidade? Deste aos meus companheiros o Dinheiro, o Poder, o Conforto, a Habilidade, o Prestígio, a Inteligência e a Autoridade e a mim concedeste tão só o Conhecimento Espírita... Como fazes cair sobre mim todo o peso de sua severidade?

O Senhor, entretanto, explicou brandamente:

- Não desconheces que te atribuí a luz da Verdade como sendo o bem maior de todos. Se ambos os teus companheiros não acertaram tudo, é que lhes faltava o discernimento que lhes podias ter ministrado através do exemplo, de que fugiste por medo da responsabilidade de corrigir amando e trabalhar instruindo... Escondendo a riqueza que te emprestei não só te perdeste pelo temor de sofrer e auxiliar, como também prejudicastes a obra deficitária de teus irmãos, cujos dias, no mundo, teriam alcançado maior rendimento no Bem Eterno se houvessem recebido o quinhão de amor e serviço, humildade e paciência que lhes negastes!...

- Senhor!... Senhor!... porquê?- soluçou o infeliz - porque tamanho rigor, se a tua Lei é de Misericórdia e Justiça.

Então, os assessores do Senhor conduziram o servo desleal para as sombras do recomeço, esclarecendo a ele que a Lei, realmente, é disciplina de Misericórdia e Justiça, mas com uma diferença: para os ignorantes do dever, a Justiça chega pelo alvará da Misericórdia, mas para as criaturas conscientes das próprias obrigações a Misericórdia chega pelo cárcere da Justiça.

 

Concentremos nossa atenção, para comentários e reflexão, nas palavras finais da narrativa. Elas nos fazem meditar profundamente, valendo à pena repetirmos os conceitos ali expostos. Estabelece que, para os ignorantes do dever, para os que não desenvolveram percepção adequada, para os que ainda não compreendem sua própria verdade, existe sempre uma desculpa ou um fato para amenizar suas provas. Estes ainda não são capazes de perceber o necessário e se mantém em estado de ignorância relativa. Para eles, a Justiça de Deus chega pelo "alvará da misericórdia". Como pouco lhes foi possível ser absorvido, pouco lhes será cobrado. Assim, a misericórdia é maior com aquele que erra por não saber, por não entender e perceber aquilo que está fazendo. O exemplo de Jesus nos comprova isto. Jesus, ao ser crucificado rogou ao Todo Misericordioso: - "Pai perdoa-os porque não sabem o que fazem!". Assim, para aqueles que não sabem o que fazem, a justiça se faz através da misericórdia.

Mas há aquelas criaturas que já têm consciência de suas obrigações e de seus deveres. Já entendem que são Espíritos em desenvolvimento. Já percebem que a lei do amor, justiça e caridade é o farol que ilumina seus caminhos. Para esses, a quem muito foi concedido - em termos de esclarecimento e de luz -, muito será cobrado. Para as criaturas conscientes de suas próprias obrigações, a misericórdia do Pai chega pelo "cárcere da justiça", corrigindo suas ações pelo remédio da dor.

Para os ignorantes a justiça chega através da misericórdia, de novas oportunidades de crescimento, de perdão, de indulgência, mas para aqueles que são conscientes e que já sabem o que devem fazer, já conhecem o caminho, já compreendem suas obrigações, a misericórdia do Pai se faz sentir, através da lei de causa e efeito, através da justiça divina.

Pode parecer, para os mais precipitados, que sejam dois pesos e duas medidas. Pode parecer que a justiça de Deus não seja a mesma para todos os homens. Mas ela é exatamente a mesma. A diferença está no tamanho do fardo que nos habilitamos a levar e na intensidade do jugo que nos dispusemos a suportar. Aquele que erra, com consciência real do erro, não se sente feliz enquanto não for capaz de refazer, de recomeçar, de corrigir, de redimir-se das falhas e fraquezas que já percebe em si. Por isto a dor como instrumento de retificação! Deus dá a misericórdia da justiça para o crescimento espiritual do indivíduo, possibilitando-o caminhar com mais conhecimento, vencendo a ignorância no uso de seu livre-arbítrio.

Muitos recebem, para o exercício do desenvolvimento espiritual: dinheiro; poder; conforto; habilidade; prestígio. E devem ser capazes de multiplicar esses talentos, compartilhando-os com seus semelhantes, fazendo com que se tornem produtivos para o mundo em que vivem. Se nada forem capazes de fazer, esses talentos significarão pouco ou nada para sua evolução espiritual, e quanto maior o discernimento e a compreensão da lei de Deus, maior será o débito assumido.

Assim, também deve ser o uso da inteligência. A inteligência sendo usada para criar e fazer diferença no mundo, propiciando mais luz, desenvolvendo mais cultrura e mais sabedoria para todos. A autoridade trazendo para muitos dos seus irmãos o progresso, o conhecimento e a oportunidade de trabalho.

Sejam quais forem os talentos que Deus nos conceda, por acréscimo de misericórdia, muito mais teremos, se formos capazes de utilizá-los para auxiliar nossos semelhantes. Se, ao contrário,

nada formos capazes de fazer com eles, é porque pouco temos, e até este pouco que temos nos será tirado, para aprendermos, através da dor, a valorizar seu uso.

O conhecimento da doutrina espírita é um talento que já nos permite perceber essas verdades. Deve ser utilizado para melhorar a humanidade, para disseminar o amor, a compreensão, o respeito e a caridade entre os homens, tornando-os mais conscientes e mais fortes para vencerem suas próprias fraquezas. É, pois, o mais rico dentre todos os talentos porque nos ensina, nos orienta a como utilizar de maneira efetiva todos os demais, ajudando-nos a construir a igreja interior, capaz de nos religar com o Criador e nos colocar à disposição Dele para amenizar as provas e expiações de nossos semelhante.

Alguns dizem que o Espiritismo é uma religião muito difícil de ser professada, porque nada exige dos homens, além de viver em amor, em caridade e em justiça. Tudo é permitido, nada é pecado, a sementeira é livre, mas a colheita é obrigatória e a cada um será dado conforme tiver semeado.

Aproveitemos este talento, esta riqueza que Deus nos concede, para sermos capazes de dedicar a vida ao desenvolvimento do nosso semelhante, como forma de assegurar nossa própria evolução. Não podemos enterrar o talento e devolvê-lo ao Criador, intocável, sem nada fazer dele, pois, assim procedendo, estaremos perdendo o que nos foi dado como acréscimo de misericórdia, demostrando que para nós ele não teve significado.

A doutrina espírita mostra estamos à caminho da luz, sujeitos à lei de causa e efeito. Estabelece que só existe um determinismo no Universo: num futuro longínquo seremos espíritos puros e seremos capazes de ver nosso Pai entendendo sua Criação. Mas, para isto, o Espiritismo, como cristianismo redivivo, identifica a necessidade de enterrarmos aquele homem velho, prisioneiro de paradigmas materiais, deixando surgir um homem novo, disposto a ajudar e a fazer diferença no mundo.

Não escondamos, pois, este dom, esta dádiva, este talento que é o conhecimento espírita. Ao contrário, que tenhamos o poder da disseminação, levando, a todos aqueles que precisam, a palavra de consolo e conforto, que nos é dada por essa doutrina maravilhosa, codificada por Allan Kardec.

 

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