CAÇANDO CORAÇÕES PARA ETERNIDADE
O espírito do homem foi criado simples e ignorante com a destinação de evoluir para Deus, inteligência suprema, causa primária de todas as coisas. O corpo na forma humana foi idealizado pela Divindade para abrigar o espírito do homem em sua escalada evolutiva, submetendo-o a limitações de toda a sorte, dentro das quais terá que superar as tendências inferiores que ainda carrega, aprendendo a expandir sua própria percepção da criação. Somente quando purificado o homem poderá ver a Deus em sua infinita grandeza.
As limitações da matéria que carrega impedem, muitas vezes, que perceba sua natureza divina, fazendo com que se mantenha ligado ao imediatismo das coisas do mundo, valorizando apenas aquilo que lhe proporciona condições de viver na matéria. A acomodação é a maior inimiga que o homem pode ter para a sua escalada evolutiva e, quase sempre, origina-se na inércia a que ele se entrega diante de suas limitações físicas, intelectuais e morais. A falta de constância, a ausência do espírito de luta, a preguiça, a desculpa, a desilusão são posturas comuns na matéria, todavia inadequadas ao progresso e à evolução.
Os japoneses têm uma cultura milenar, ligada à crença reencarnacionista. É o que chamam de "kaizen", que significa aprimoramentos lentos, graduais, sutis, levando o homem ao progresso contínuo. Nessa crença, afirmam ser a acomodação a maior inimiga do progresso, concitando os indivíduos a melhorarem tudo aquilo que fazem e a se tornarem eternamente insatisfeitos com suas próprias condições. Procuram disseminar nos homens a consciência de sua imperfeição e a necessidade de buscarem a luz da sabedoria nas menores ações do dia-a-dia. Partem da premissa de que tudo o que existe pode ser sempre melhorado e que não há limites para a evolução, pois a perfeição nunca é absoluta. Assim, é preciso compreender que nada é definitivo no homem. Tudo muda, tudo evolui, tudo se modifica sob o influxo da vontade do Criador. Por essa crença, o homem deve reconhecer seus erros e aceitar sua imperfeição, buscando aprimorar-se todos os dias, por menor que seja a melhoria possível de ser alcançada.
Essa crença japonesa, fruto da concepção espiritual do homem, tem muita semelhança com as lições de Francisco de Assis que, pela perseverança, pela constância na busca de seus objetivos dizia ser necessário que a cada dia colocássemos pelo menos um tijolo na construção de nossas vidas. Em pouco tempo poderíamos observar a igreja que fomos capazes de construir com o esforço continuado. Essa postura, de constância de propósitos e de ações, faz diferença ao longo do tempo. Aqueles que buscam a perfeição baseada em valores imediatistas, que buscam resultados em curto prazo, ainda não estão preparados para ela. Há que se ter visão clara do futuro almejado, mas para que este futuro seja possível as ações devem ser empreendidas todos os dias. Por mais que nos aproximemos da meta final sempre haverá muito ainda por fazer, muito ainda por aprender e por progredir.
Quando encarnado, apesar de dotado da capacidade de pensar, discernir e escolher seus caminhos, o homem se vê preso a necessidades imediatas e a compromissos que acabam por acomodá-lo, impedindo-o de realizar vôos mais altos na direção de sua espiritualização. São obrigações domésticas, relações de família, afazeres profissionais e apegos a falsos valores materiais, priorizando suas ações e desviando-o dos rumos traçados por sua destinação. Move-se guiado pelos limitados sentidos da visão, da audição, do tato, do olfato e do paladar que lhes permitem apenas uma pálida percepção do universo a sua volta.
Apesar de dotado de inteligência, que o faz perceber a harmonia existente na Natureza, muitas vezes não consegue perceber a existência da força criadora interferindo em todas as coisas, adequando-as à vontade do Pai. Muitos são aqueles que nem se preocupam, ainda, em pensar ou em buscar entender qual o significado de suas vidas. O que são? Qual a sua destinação? Porque este ciclo contínuo entre a vida e a morte? Por que os homens são tão diferentes uns dos outros?
Como criaturas de Deus, convivendo com outros seres na natureza material, somos submetidos às mesmas leis, não se permitindo, a quem quer que seja, descumpri-las. Todo desvio será sempre compelido ao necessário reajuste. O ser espiritual evolui entre dois mundos, entre mergulhos nas limitações da carne e desprendimento no plano espiritual, onde estas limitações não mais existem. Dotados da misericórdia do esquecimento do passado, o homem consegue fazer e refazer seus caminhos até que a purificação espiritual lhe permita perceber e entender o verdadeiro significado da criação. Quando aprisionado na carne, entretanto, é com muita dificuldade que consegue se libertar dos valores materiais. Em geral, na matéria ele prioriza a matéria.
A dor é o grande agente de retificação dos rumos, atuando de forma implacável, como um verdugo que cobra reajuste e abate o ímpeto dos mais recalcitrantes, forçando-os a meditarem e a buscarem o apoio nos valores do espírito.
Selecionamos no livro Contos e Apólogos, do Espírito Irmão X, uma história intitulada "O Caçador Providencial" que ajuda a ilustrar como o sofrimento atua em nossa retificação moral.
Conta-nos assim o Irmão X:
Conversávamos acerca do sofrimento, quando o orientador hindu que nos acompanhava contou com simplicidade infantil:
- O anjo da Libertação desceu do Paraíso a este mundo, pousando num cômoro verdejante, a reduzida distância do mar.
Aproximaram-se dele um melro, um abutre, uma tartaruga e uma borboleta.
Reconhecendo que essa era a assembléia de que podia dispor para a revelação que trazia, o iluminado peregrino começou, ali mesmo, a exalçar as virtudes do Alto, convidando-os à Vida Superior.
Com frases convincentes, esclareceu que o melro, guindado aos cimos da luz, transforma-se-ia num pombo alvo, que o abutre seria metamorfoseado numa ave celestial, que a tartaruga receberia nova forma, suave e leve, em que lhe seria possível planar na imensidão azul e que a borboleta converte-se-ia em estrela luminescente...
Os ouvintes assinalaram as promessas com emoção; no entanto, assim que o silêncio voltou a reinar, o melro alegou:
- Anjo bom, escusai-me! Um ninho espera-me no arvoredo... Meus filhotes não me entenderiam a ausência.
E afastou-se, apressado.
O abutre confessou em tom enigmático:
- Comovente é a vossa descrição do Plano Divino, entretanto, possuo interesses valiosos no mundo. Preciso voar...
E partiu, batendo as asas, a fim de arrojar-se sobre carniça próxima.
A tartaruga moveu-se lentamente e explicou:
- Quisera seguir-vos, abandonando o cárcere sob o qual me arrasto no solo, contudo, tenho meus ovos na praia...
E regressou, pachorrenta, à habitação que lhe era própria.
A borboleta achegou-se ao pregador da bem-aventurança e disse, delicada:
- Santo, não posso viajar convosco. Moro num tronco florido e meus parentes não me desculpariam a fuga.
E tornou à frescura do bosque.
O anjo, que não podia violentá-los, marchou, sozinho, para diante...
A borboleta, porém apenas avançara alguns metros, na volta a casa, viu-se defrontada por hábil caçador que lhe cobiçava as asas brilhantes.
Após longa resistência, tentou alcançar a árvore em que residia, mas, perseguida, presenciou a morte de alguns familiares que repousavam. Chorosa, buscou refugiar-se em velha furna, sendo facilmente desalojada pelo implacável verdugo. Ensaiou, debalde, esconder-se entre velhos barcos esquecidos na areia...
Tudo em vão, porque o homem tenaz era astucioso e sabia frustrar-lhe todas as tentativas de defesa, armando-lhe ciladas cada vez mais inquietantes.
Quando a pobre vítima se sentia fraquejar, lembrou-se do Anjo da Libertação e voou ao encontro dele.
O mensageiro divino recebeu-a, contente e, oferecendo-lhe asilo nos próprios braços, garantiu-lhe a salvação.
O narrador fez pequena pausa e considerou:
- O sofrimento é assim como um caçador providencial em nossas experiências. Sem ele, a humanidade não se elevaria à renovação e ao progresso. Quem se acomoda com os planos inferiores, dificilmente consegue descortinar a Vida Mais Alta sem o concurso da dor. Saibamos, assim, tolerar a aflição e aproveitá-la. Quando a criatura se vê na condição da borboleta aflita e desajustada, aprende a receber na Terra o socorro do Céu.
Calou-se o mentor sábio, e, porque ninguém comentasse o formoso apólogo, passamos todos a refletir.
O homem, em geral , só se lembra de buscar o Criador quando a vicissitude lhe abate o ânimo, quando se sente impotente para resolver seus próprios problemas. A dor lhe obriga a questionar os "porquês" e o induz a retificar seu caminho pela mudança de postura. Mas, via de regra, diante dessas circunstâncias, o homem não consegue se livrar da bagagem imprópria, que traz consigo, cheia de paixões inferiores, de apegos, de ilusões e de orgulho. Quanto maior o apego aos valores errados, quanto mais pesada a bagagem de ilusões, maior seu sofrimento diante das dores do caminho e menos preparado ele se encontra para os embates da vida, para as lições da evolução.
Todos os dias somos submetidos a essas lições e temos oportunidades de aprender num processo continuado de ensaio e erro. A aflição e a vicissitude são instrumentos retificadores de postura diante das necessidades de aprendizado espiritual. A revolta, a desesperança, a queixa, a reclamação não são formas adequadas para se enfrentar a realidade da vida. Além de não ajudar a resolver os problemas, ainda agravam os débitos, aprisionando as pessoas em atitudes negativas e improdutivas.
Os mensageiros da boa vontade, os trabalhadores do Senhor esforçam-se incessantemente para infundir nos corações a resignação, a esperança a postura proativa, num convite constante para se colocar a visão no futuro espiritual, na destinação de filhos do Pai e na condição de espíritos imortais. Alguns compreendem e aceitam o convite com mais facilidade. Outros reagem e se negam a aceitá-lo e outros, apesar de já compreenderem, mantém-se ligados aos afazeres do mundo, único campo que valorizam e em que gravitam, não encontrando tempo para a religação com o Criador.
Para os que reagem, a dor atua como caçadora implacável, forçando-os a refazerem seus caminhos. Diante da dor evidencia-se a impotência do homem, aparece a busca do abrigo, do consolo, e a necessidade de ampliação do entendimento. A dor é a sublime mensageira convidando à interiorização de valores imperecíveis. Diante dela tudo se refaz, tudo se retifica, tudo se harmoniza com a vontade do Criador que determina amor incondicional a todas as criaturas. Diante dela tudo se renova e de nada adiantam a ilusão do orgulho, a presença do egoísmo endurecendo corações e a prepotência das ações do mundo. Diante dela só sobrevive a verdade impulsionando as criaturas a se tornarem mais úteis umas às outras e a diminuírem cada vez mais a influência que ainda sofrem dos valores da matéria.
A aflição é a grande lição que Deus nos reserva para podermos nos abrigar diante de sua vontade e obter o consolo através do caminho da virtude. A dor é uma implacável caçadora de corações. Por isto Jesus, nosso mestre maior nos afirmou:
"Bem aventurados os que choram, porque eles serão consolados!"
(Mateus V, versículo 4)