JONAS, O CONTADOR DE HISTÓRIAS

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APRENDENDO POR EXPERIÊNCIA PRÓPRIA

O princípio espiritual, ao conquistar, em sua escala evolutiva, a condição de assumir na matéria a forma hominal, recebeu do Criador o direito de exercer sua vida conforme sua própria vontade. É o que chamamos de livre-arbítrio ou de direito de escolha.

Todos, portanto, encarnados ou desencarnados, que estamos em estágio evolutivo, assumindo a forma hominal, isto é, a forma de homens, estamos em processo de escolha permanente. Poder-se-ia mesmo dizer que tudo o que fazemos, a cada momento da vida, é conseqüência da faculdade de escolher.

Vejamos alguns exemplos:

A realidade é simples: o direito de escolher nos foi concedido e vivemos num processo contínuo de aprendizado no uso desse direito. Caminhamos pela vida escolhendo a cada instante.

Analisemos algumas questões que aparecem nas discussões acerca da influência ou da interferência que pode ser exercida em nosso livre-arbítrio:

Para melhor entendermos a resposta a essas questões e a outras sobre o mesmo tema, torna-se necessário alinharmos alguns pontos relacionados com lições aprendidas, com independência, com julgamento, com interferência, com influência, com responsabilidade e com amor.

Para nos ajudar, selecionamos uma história tirada do livro Estante da vida, do Espírito Irmão X, que se intitula "Lição Viva". Esta história nos auxilia a reflexão e o entendimento, facilitando-nos encontrar as respostas às perguntas acima formuladas.

Conta-nos assim o Irmão X:

A caminho do aeroporto, Aristeu Soares comentava com amigo Alcides Mota os ensinamentos recolhidos na reunião mediúnica da véspera, e estabeleceu-se, de pronto, curioso diálogo.

- Creio absolutamente inoportuna qualquer pregação tendente a ferir-nos à independência - falava Soares, decidido.

- Mas... - volvia Mota,...reticencioso.

- O assunto não comporta evasivas. Os Espíritos amigos que se comuniquem, que consolem, que instruam; no entanto, nada de fabricarem freios psicológico, copiando as religiões do passado.

- Mas, estamos no estágio da reencarnação, à maneira de alunos na escola. Não sabemos tudo e nem dispensamos o auxílio de professores que nos apontem o caminho certo, para que venhamos a errar o menos possível...

- Ninguém aprende sem experimentar a lição por si próprio.

- A função do ensino será, decerto, conduzir-nos à experiência sem quedas desnecessárias.

- Você está procurando subterfúgios.

- Não, meu caro. Compreendamos que os bons espíritos nos ajudam sem coação. A lei de Deus nos conclama a viver hoje de modo mais elevado que antes. Você, claro, não quererá repetir as mesmas faltas de passadas reencarnações...

- Isso é outra coisa. O ensinamento é luz para o íntimo. Concordo em que os benfeitores espirituais nos eduquem os sentimentos; entretanto, a meu ver, não é justo que se aproveitem do intercâmbio conosco para nos arredarem da regalia de proceder como quisermos...

Serão bons amigos, sem dúvida; contudo, na maioria das vezes, fazem-se doces e afáveis para induzir-nos a uma posição de disciplina que não aprovo. Nada de exposições acerca de penas e lágrimas além-túmulo e de apelos constrangedores a essa ou àquela atitude, ante os princípios de causa e efeito, quais se devêssemos desempenhar o papel de crianças assombradas...

- Soares, Soares!...Você, ao que vejo, não percebe que os instrutores espirituais nos guiam para o bem, exclusivamente para o bem...

- Compreendo que se prove a imortalidade da alma e aceito a necessidade da convicção, mas não justifico advertências e avisos de amigos encarnados ou desencarnados. Se todos dispomos de livre arbítrio e se a própria Doutrina Espírita consagra a responsabilidade pessoal, por que motivo os discursos ou escritos de corrigenda ou reprovação?!...

Mota, porém, não esmorecia na sensata argumentação com que se impunha, e replicava, enquanto o ônibus deslizava, célere:

- Lembre-se de que estamos na Terra, "mundo de provas e expiações". Somos na Humanidade os membros de uma só família, na obrigação de amparar-nos e defender-nos mutuamente. Em muitas ocasiões, em vez de agirmos com acerto, procedemos à feição de loucos... Ora, nem sempre cumpriremos o dever de solidariedade, oferecendo rosas e caramelos uns aos outros. Um companheiro, prestes a afogar-se, é salvo através de um choque providencial...

- Não. Nada de escapatória. Acidente é outra coisa. Refiro-me a conselhos que ninguém pede...

- Onde colocaremos, então, a medicina preventiva e os preceitos da ordem social? Num planeta, qual o nosso, não podemos ignorar o valor da polícia e da imunização.

- Não me venha com sofismas. Sou contra qualquer palavra da Terra ou do Mundo Espiritual que intente furtar-nos o direito irrestrito à liberdade de ação...

Nisso, o veículo parou e a conversa interrompeu-se, porque o avião estava quase a decolar.

Mais alguns minutos, e os dois companheiros se achavam a pleno céu, confortavelmente instalados no rumo da capital argentina.

Tudo corria às mil maravilhas, quando, a meio da noite, ambos viram certo companheiro de viagem, evidentemente enfermo e em momento de insânia, ajustando uma bomba, rente a si próprio, para suicídio espetacular.

Foi então que Mota falou para Soares, com excelente lógica:

- Agora, meu caro, recordemos nosso desacordo e examinemos a prova diante de nós. Tomamos medida contra o vizinho em delírio ou comprometemos, conscientemente, não apenas a nossa vida, como também vida de dezenas de passageiros. E não é só. É preciso agir com prudência ou iremos todos pelos ares...

Aristeu concordou no sorriso amarelo:

- É... é...

E enquanto Mota se dirigia, cauteloso, ao comando da nave, para a solução pacífica do problema, foi o próprio Soares quem se abeirou, afetuosamente, do louco e, após identificar-lhe a condição de espírito revoltado, passou a adverti-lo com palavras de brandura e entendimento, chamando-o por "irmão".

É certo que temos liberdade de escolher, mas também é certo que vivemos em coletividade, e que tudo o que ocorre no mundo permanece em estado de interdependência. Isto significa que não existe ação isolada no Universo. Tudo o que se faz influencia ou impacta o ambiente próximo ou afastado de nossa vida, isto é, estamos sempre em atividades de interrelacionamento.

Partindo desse pressuposto, é correto afirmar que a liberdade de cada um de nós deve ser limitada àquilo que interfere na liberdade do próximo. O fato de termos, por efeito da Criação, o direito de escolher nossos caminhos não nos autoriza a interferir de maneira negativa no caminho do outro.

É certo também que, em cada caminho que escolhemos, existem lições a serem apreendidas, mas não necessariamente devem ser aprendidas pelo processo do ensaio e erro. Assim, é muito melhor considerarmos os conhecimentos e as experiências dos outros para balizarmos nossos comportamentos, do que tentarmos sempre aprender por experiência própria.

O chanceler alemão Bismarck dizia: "- Apenas os tolos aprendem por experiência própria!"

Dentro desse novo pressuposto, podemos concluir que todas as lições, conselhos e orientações que venham a nos facilitar o caminho, evitando que caiamos em erro, devem ser considerados benéficos e proveitosos para nossa vida. Não é preciso sofrer para aprender. Apenas aos recalcitrantes e invigilantes a dor deve ser considerada como instrumento da aprendizagem.

Quando nossos protetores e guias espirituais nos intuem bons pensamentos, alertando-nos para os perigos da estrada, não estão interferindo em nosso direito de escolha, mas ao contrário, estão nos ajudando no processo de escolher, baseados em lições aprendidas por eles mesmos. São mensageiros do amor em nossas vidas. Os bons Espíritos respeitam nosso livre arbítrio e não interferem em nossas escolhas, mas exercem o princípio da caridade ensinando, orientando e mostrando os melhores caminhos.

É correto também que a regra que nos ensina ser "melhor prevenir do que remediar" baseia-se na necessidades de nos movermos segundo lições que já foram aprendidas por outros e que têm potencial para se repetir conosco, ao invés de preferimos ignorá-las e sofrer as conseqüência de nossa imprevidência.

As próprias leis humanas e a Ordem Social baseiam-se na necessidade de prevenção de problemas no relacionamento entre os homens.

Por último, é necessário frisar que, se Deus nos outorgou o livre-arbítrio, nos impôs também a responsabilidade pelas ações. Portanto, tudo o que fizermos será de nossa inteira responsabilidade, não nos cabendo culpar quem quer que seja pelas escolhas feitas. Assim como nos outorgou o direito de escolher, Deus nos deu a capacidade de discernir entre o certo e o errado, entre o bem e o mal. Esta capacidade está consubstanciada na moral, na Lei Maior que nos impõe, por necessidade evolutiva, o comportamento pautado no amor e na caridade.

No mundo de provas e expiações em que vivemos, o homem não pode prescindir de regras, de leis, de padrões e de constrangimentos que o forcem a adaptar-se às condições necessárias à harmonia Universal. Por mais adiantado que ele seja, é ainda imperfeito, o que significa que os caminhos escolhidos são, muitas vezes, pautados pelo erro.

Na medida em que formos capazes de assumir conscientemente a responsabilidade pelas nossas ações e que conseguirmos entender com clareza a lei do amor, justiça e caridade, precisaremos cada vez menos da interferência, dos conselhos e das orientações espirituais. Isto porque, conscientes de nós mesmos e da natureza divina que possuímos, estaremos, naturalmente, dispostos ao bem e ao equilíbrio no mundo em que vivemos.

Nesse dia, estaremos assumindo totalmente o direito de escolher, ligando-nos conscientemente à Vontade Maior do Criador, podendo sincera e sentidamente dizer: "seja feita a Vossa Vontade Pai, assim na Terra como nos céus!".

Enquanto isso não ocorre, entretanto, devemos agradecer a ventura de termos guias, orientadores e professores a nos instruírem, intuírem e auxiliarem no entendimento da verdade, impedindo-nos de cair nas tentações do mundo e afastando-nos dos males que ainda persistem em nós.

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