ALÇANDO VÔO COMO AS BORBOLETAS
Muitas pessoas confundem espiritualismo com espiritismo. Espiritualista é todo aquele que acredita na sobrevivência da alma após a morte, que acredita na individualidade espiritual do ser. A maioria das religiões do planeta são espiritualistas, como, por exemplo: católicos romanos e ortodoxos, protestantes de todas as vertentes, budistas, judeus, maometanos, espíritas.
Dentre elas, algumas crêem, além da existência da vida espiritual após a morte, na preexistência da vida, isto é, na existência da vida espiritual antes do nascimento na carne, antes da encarnação. São as chamadas religiões espiritistas, que acreditam nas reencarnações sucessivas do homem para a evolução do espírito e no destino divino que aguarda toda criatura de Deus.
O espiritismo, chamado por alguns de espiritismo cristão, codificado por Alan Kardec, a partir de mensagens mediúnicas recebidas de entidades elevadas do plano espiritual, estabelece e estuda a reencarnação como base da evolução do ser.
O espiritismo é, por conseguinte, espiritualista e espiritista e considera que o mundo espiritual é o verdadeiro mundo, preexistente a tudo, e que o mundo material e grosseiro onde vivemos é uma circunstância particular destinada a facilitar a evolução dos seres através do aprendizado diante de provas e expiações. Fundamenta-se no Evangelho de Jesus, nosso Mestre Maior, para estabelecer a virtude e os caminhos da evolução. Ensina-nos que Deus igualou a todos pela dor, pois nenhum de seus filhos está livre de sofrer as conseqüências justas de suas ações, frente aos desígnios de amor e caridade apontados, por Jesus, como sendo o caminho da verdade e da vida.
Nenhum ser, por mais insignificante que seja aos olhos do mundo, há de permanecer preso ao sofrimento eterno, ou ligado aos ambientes pesados de dor e incompreensão. A todos está reservado o destino glorioso da espiritualidade superior. Imperativo, entretanto, viver, morrer, reviver, e tornar a morrer muitas vezes, em sucessivos mergulhos na carne e voltas ao plano do espírito. Necessário que, nessas idas e vindas, cada qual construa sua trajetória de aprendizado, de conhecimento e de experiência. A cada um foi dada a responsabilidade de construir seu destino, o que significa que ninguém poderá percorrer outro caminho que não seja o seu.
Para assegurar novas oportunidades de aprendizado e aquisição de valores, Deus concede aos homens o esquecimento do passado, proporcionando condições de refazerem ou retrabalharem aquilo que fizeram de mal. Sem o esquecimento do que fizeram ou do que foram em encarnações passadas, seria muito difícil a reconstrução de suas vidas, pois manter-se-iam prisioneiros de sensações, emoções e lembranças que fomentariam todo tipo de paixão inferior: ódio, inveja, ciúme, prepotência, orgulho, vingança. Como poderiam refazer seus caminhos se voltassem a identificar as mesmas circunstâncias desagradáveis do pretérito?
A reencarnação, como premissa da religião espírita, é o grande consolo que a espiritualidade nos traz, induzindo-nos a colocar o ponto de vista de nossas ações na verdadeira pátria do homem, isto é, no Mundo Espiritual. Jesus nos disse: "em verdade vos digo que não entrará no Reino dos Céus aquele que não nascer de novo". Disse ainda que seu reino não era deste mundo, que iria para preparar o lugar de todos nós, que nenhuma ovelha do Pai seria perdida e que, no futuro, todos estariam reunidos com Ele. Jesus nos mostrava a necessidade da reencarnação para o aperfeiçoamento do homem
Para ajudar na compreensão do que Jesus representou para nós, ao trazer suas lições, consolos e orientações, selecionamos do livro Idéias e Ilustrações, uma história do Irmão X, intitulada "No reino das borboletas".
Narra assim o Irmão X:
À beira de um charco, formosa borboleta, fulgurando ao crepúsculo, pousou sobre um ninho de larvas e falou para as pequeninas lagartas, atônitas:
- Não temais! Sou eu... uma vossa irmã de raça!... Venho para comunicar-vos esperança. Nem sempre permanecereis coladas à erva do pântano! Tende calma, fortaleza, paciência!... Esforçai-vos por não sucumbir aos golpes da ventania que, de quando em quando, varre a paisagem. Esperai! Depois do sono que vos aguarda, acordareis com as asas de puro arminho, refletindo o esplendor solar... Então, não mais vos arrastareis presas ao solo úmido e triste. Adquirireis preciosa visão da vida! Subireis muito alto e vosso alimento será o néctar das flores... Viajareis deslumbradas, contemplando o mundo, sob novo prisma!... Observareis o sapo que nos persegue, castigado pela serpente que o destrói, e vereis a serpente que fascina o sapo, fustigada pelas armas do homem!...
Enquanto a mensageira se entregava a ligeira pausa de repouso, ouviram-se exclamações admirativas:
- Ah! Não posso crer no que vejo!
- Que misteriosa e bela criatura!...
- Será uma fada milagrosa?
- Nada possui de comum conosco...
Irradiando o suave aroma do jardim em que se demorara, a linda visitante sorriu e continuou:
- Não vos confieis à incredulidade! Não sou uma fada celeste! Minhas asas são parte integrante da nova forma que a Natureza vos reserva. Ontem vivia convosco; amanhã vivereis comigo! Equilibrar-vos-ei no imenso espaço, desferindo vôos sublimes à plena luz! Libertadas do chavascal, elevar-vos-eis, felizes! Conhecereis a beleza das copas floridas e o saboroso licor das pétalas perfumadas, a delícia da altura e a largueza do firmamento!...
Logo após, lançando carinhoso olhar à família alvoroçada, distendeu o corpo colorido e, volitando, graciosa, desapareceu.
Nisso chega ao ninho a lagarta mais velha do grupo, que andava ausente, e, ouvindo as entusiásticas referências das companheiras mais jovens, ordenou, irritada:
- Calem-se e escutem! Tudo isso é insensatez...Mentiras, divagações... Fujamos aos sonhos e aos desvarios. Nunca teremos asas. Ninguém deve filosofar... Somos lagartas, nada mais que lagartas. Sejamos práticas no imediatismo da própria vida. Esqueçam-se de pretensos seres alados que não existem. Desçam do delírio da imaginação para as realidades do ventre! Abandonaremos este lugar, amanhã. Encontrei a horta que procurávamos... Será nossa propriedade. Nossa fortuna está no pé de couve que passaremos a habitar. Devorar-lhe-emos todas as folhas... Precisamos simplesmente comer, porque, depois, será o sono, a morte e o nada... nada mais...
Calaram-se as larvas, desencantadas.
Caiu a noite e, em meio à sombra, a lagarta-chefe adormeceu, sem despertar no outro dia. Estava ela completamente imóvel.
As irmãs, preocupadas, observaram curiosas o fenômeno e puseram-se na expectativa.
Findo algum tempo, com infinito assombro, repararam que a orgulhosa e descrente orientadora se metamorfoseara numa veludosa falena, voejante e leve...
Anotando a lição breve e simples, cremos que há muitos pontos de contato entre o reino dos homens e o reino das borboletas.
Assim como aquela borboleta, que irradiava perfume e sabedoria, compareceu diante de seus semelhantes para lhes mostrar a verdade, os mensageiros da espiritualidade, em todos os tempos, estão trazendo testemunhos para os seres encarnados de todas as religiões. Diante de suas mensagens, observam-se posturas diversas: admiração, fé cega, fé raciocinada, fé com obras ou a incredulidade dos céticos. Mas em todos os casos o homem se preocupa e tenta explicar seu destino após a morte, único determinismo que ele tem a certeza de que não pode controlar. Muitos acreditam no nada e dedicam-se a viver intensamente cada instante suprindo suas necessidades imediatas de sobrevivência. Lutam, competem, disputam e só enxergam o lado material da vida, negando sua essência divina. Consideram as coisas da religião como mentiras, divagações ou filosofias que levam a lugar nenhum. Mas, mesmo assim, na luta do dia-a-dia, sofrem, aprendem, aperfeiçoam sua inteligência e conhecimento. evoluindo constantemente na direção de seu destino.
A verdade é uma só. Não importa o que pensamos ou sentimos. Diante da morte encontraremos a vida vibrando intensamente em todos os cantos do universo. Somos espíritos em evolução. Esta é a nossa natureza.
O espiritismo nos foi trazido por entidades quais aquela borboleta, para nos orientar, consolar e aconselhar quanto à verdade da vida. É o consolador prometido por Jesus no Evangelho de João. Somos quais aquelas lagartas, preocupados em devorar o pé de couve para sobreviver, incapazes de observar a magnitude do universo à nossa volta. Vivemos à beira dos charcos, neste mundo de provas e expiações, sofrendo os golpes e as ventanias do destino que traçamos. Mas, no futuro, seremos capazes de alçar vôos mais elevados, observando o mundo de outra forma, adquirindo valores imperecíveis, necessários à felicidade do ser.
Que esse conto do Irmão X seja para todos nós uma mensagem de fé e esperança . Que a imagem da borboleta, que se liberta do casulo após longo tempo de sono e de inconsciência, depois de ter vivido a se arrastar no lodo do mundo, possa servir de guia para o nosso ponto de vista. Que Jesus possa ser visto e compreendido como o Grande Mensageiro, concitando seus semelhantes à esperança e à fé, dizendo-nos que se antecipou a nós para preparar o caminho e o lugar, e, se naquele tempo ele vivia conosco, no futuro viveremos com Ele no plano espiritual.
Que a imagem do menino Jesus na manjedoura, renovada a cada ano, possa indicar para nossos corações a necessidade de transformação interior, a necessidade da renovação de hábitos e atitudes, o aproveitamento das oportunidades de crescimento que nos são dadas com a indicação da verdade da reencarnação.
Jesus renasce a cada ano, durante o Natal. As religiões espiritualistas cristãs comemoram sua vinda ao planeta, convidando seus fiéis à transformação íntima, mas poucos são os seguidores que entendem o sacrifício feito por esse Ser Superior para nos trazer a verdade. Que possamos comemorar com Jesus seu aniversário, interiorizando os valores ensinados, dividindo com os irmãos do caminho o amor que une, que redime e aperfeiçoa. Que todos nós, como lagartas humanas, possamos entender e exercitar a caridade, olhando para aqueles menos esclarecidos e mais necessitados de amparo. Que possamos alçar vôos como as borboletas.