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A REGRA DE AJUDAR
Jesus integrou toda lei e todos os ensinamentos dos profetas em uma única lei de justiça, amor e caridade. Apontou a caridade como único caminho para que o discípulo consiga atingir a espiritualidade superior e possa candidatar-se à perfeição. A caridade é, portanto, o fiel da balança que pesa o crescimento espiritual atingido e a luz adquirida na jornada humana.
No entanto, a compreensão da caridade não é plena dentre os seguidores dos ensinamentos de Jesus. A caridade pode manifestar-se de muitas maneiras, desde a doação de bens materiais até o simples sorriso fraterno. O cristão deve buscar ampliar sua percepção para compreender que caridade implica utilidade, que caridade é a transformação da luz divina do amor em ação construtiva. Toda utilidade produzida é caridade desenvolvida.
Para que as ações sejam consideradas caridosas devem passar pela peneira da utilidade. Utilidade para o próximo, utilidade para a sociedade, utilidade para a natureza, utilidade para o mundo. Pode-se dizer que, sempre que a utilidade estiver presente, o bem se fez presente.
Sempre que era perguntado a Jesus qual seria o caminho para o reino dos céus, entendendo-se este reino como a evolução espiritual, a pureza e a divindade, ele respondia:
"Se queres ser o maior dentre todos, seja aquele que mais serve".
Servidor é o produtor de utilidade. O que mais serve é aquele que o faz incondicionalmente, em todos os momentos da vida, em todos os lugares, em todas as situações, em todas as ações que pratica. É útil em todas as coisas.
Em "O Evangelho Segundo o Espiritismo" capítulo XVII – Sede Perfeitos, Allan Kardec desenvolve o tema ligado ao "Homem de Bem". Seu conteúdo é uma "obra prima", digna de ser reproduzida, lida, refletida e disseminada por todos, por resumir as características básicas daquele que pratica a caridade naturalmente, demonstrando em suas ações o cumprimento da lei de Deus.
A seguir, apresentamos alguns trechos comentados desse tema que vale a pena relembrar.
Para Kardec o homem de bem, o homem útil, o homem caridoso é aquele que é capaz de cumprir a lei de justiça, amor e caridade, na sua maior pureza. Tentando traduzir o que seria isso ele nos indica que homem de bem é aquele que:
interroga sempre a sua consciência para avaliar se os seus atos foram pautados com todo o bem que ele podia fazer, com toda utilidade que estava a seu alcance;
submete-se à vontade de Deus por compreender que nada mais é que do que simples criatura; tudo o que tem, tudo o que existe provém do Criador;
tem fé na vida futura, na vida espiritual, e compreende que ela só será plena de luz se for capaz de vencer o combate que trava constantemente consigo próprio;
percebe que as dores do mundo, as decepções, as frustrações são provas ou expiações necessárias para o seu burilamento e que o sofrimento que o visita provém da postura que ele assume diante das dores, que muitas vezes não consegue suportar com resignação, com coragem;
sente satisfação nos benefícios que espalha, nos serviços que presta, nas lágrimas que enxuga, nas consolações que proporciona;
pensa sempre no próximo, antes de pensar em si;
respeita todas as convicções sinceras e não lança anátema nem combate aqueles que não pensam como ele;
não compete, ao contrário sempre busca agregar valor no que faz, no que diz e no que exemplifica;
recua diante da possibilidade de causar alguma dor em seu semelhante, quando a pode evitar;
não alimenta ódio, nem rancor, nem desejo de vingança; perdoa e esquece as ofensas e só se lembra dos benefícios recebidos;
tem postura indulgente, compreensiva com as fraquezas alheias por saber que ainda é carente de indulgência e de misericórdia;
não toma para si a ação da justiça, não julga, não pune, não rotula as pessoas, não é preconcebido, não evidencia fraquezas, males e imperfeições; apenas ampara, ajuda, suporta e consola;
busca identificar e combater suas próprias fraquezas com perseverança e determinação, não se deixando abater pelas quedas do caminho;
tira lições de todas as situações da vida, entendendo que o uso do livre-arbítrio é, na realidade, a forma mais adequada para o seu aprendizado e evolução;
não abusa dos bens que lhe são concedidos, sentindo-se um depositário de misericórdia, da qual deverá prestar contas na balança da utilidade;
não se sente melhor, nem diferente de ninguém, respeitando as eventuais diferenças pela ótica do amor, da compreensão e da fraternidade.
Todas essas características, na realidade, estão relacionadas ao amor em ação, isto é, à caridade. Têm a ver com as verdadeiras intenções e com os sentimentos reais que movem nossas ações nas jornadas que nos são próprias.
Poder-se-ia dizer que a evolução do homem será feita por meio do combate que ele desenvolve com suas diferentes personalidades, para que ele, de forma integral, possa ser único, sem máscaras, uma individualidade sublime, um espírito de Deus, pleno de amor em todas as situações.
Sobre este tema, que nos fala da caridade real como fonte de vida, selecionamos no livro Jesus no Lar, de Néio Lúcio, uma história intitulada "A Regra de Ajudar".
Conta-nos assim, Néio Lúcio:
João, no auge da curiosidade juvenil, compreendendo que se achava à frente de novos métodos de viver, tal a grandeza com que o Evangelho transparecia dos ensinamentos do Senhor, perguntou a Jesus qual a maneira mais digna de se portar o aprendiz, diante do próximo, no sentido de ajudar aos semelhantes, ao que o Amigo Divino respondeu, com voz clara e firme:
- João, se procuras uma regra de auxiliar os outros, beneficiando a ti mesmo, não te esqueças de amar os companheiros de jornada terrestre, tanto quanto desejas ser querido e amparado por eles.
A pretexto de cultivar a verdade, não transformes a própria existência numa batalha em que teus pés atravessem o mundo, qual furioso combatente no deserto; recorda que a maioria dos enfermos conhece, de algum modo, a moléstia que lhe é própria, reclamando amizade e entendimento, acima da medicação.
Lembra-te que não há corações na Terra sem problemas difíceis a resolver; em razão disso, aprende a cortesia fraternal para com todos.
Acolhe o irmão do caminho, não somente com a saudação recomendada pelos imperativos da polidez, mas também com o calor do teu sincero propósito de servir.
Fixa nos olhos as pessoas que te dirigirem a palavra, testemunhando-lhes carinhoso interesse, e guarda sempre a posição de ouvinte delicado e atencioso; não levantes demasiadamente a voz, porque a segurança e a serenidade com que os mais graves assuntos devem ser tratados não dependem de ruído.
Abstém-te das conversações improfícuas; o comentário menos digno é sempre invasão delituosa em questões pessoais.
Louva quem trabalha e, ainda mesmo diante dos maus e dos ansiosos, procura exaltar o bem que são suscetíveis de produzir.
Foge do pessimismo, guardando embora a prudência indispensável perante as criaturas arrojadas em negócios respeitáveis, mas passageiros, do mundo; a tristeza improdutiva, que apenas sabe lastimar-se, nunca foi útil à Humanidade, necessitada de bom ânimo.
Usa, cotidianamente, a chave luminosa do sorriso fraterno; com o gesto espontâneo de bondade, podemos sustar muitos crimes e apagar muitos males.
Faze o possível por ser pontual; não deixes o companheiro à tua espera, a fim de que te não seja atribuída uma falsa importância.
Agradece todo o benefício da estrada, respeitando os grandes e os pequenos; se o Sol aquece a vida, é a semente de trigo que fornece o pão.
Deixe que as águas vivas e invisíveis do amor, que procedem de Deus, Nosso Pai, atravessem o teu coração, em favor do círculo de luta em que vives; o Amor é a força divina que engrandece a vida e confere poder.
Façamos, sobretudo, o melhor que pudermos, na felicidade e na elevação de todos os que nos cercam, não somente aqui, mas em qualquer parte, não apenas hoje, mas sempre.
Silenciou o Cristo e, assinalando a beleza do programa exposto, o jovem apóstolo inquiriu respeitosamente:
- Senhor, como conseguirei executar tão expressivos ensinamentos?
O mestre respondeu resoluto:
- A boa-vontade é nosso recurso de cada hora.
E, afagando os cabelos do discípulo inquieto, encerrou as preces da noite.
Não há como tornar-se um homem de bem sem o trabalho e sem o exercício da vida. E, nela, a boa vontade e a disposição para o serviço serão sempre os alavancadores do progresso espiritual e das forças construtivas de um mundo melhor.
Assim:
se hoje já aceitamos e compreendemos essas verdades;
se hoje lutamos com as dificuldades naturais de nosso longo caminho de aprendizado;
se muita vez não conseguimos vislumbrar os reais resultados de nosso esforço;
se ainda convivemos com a incompreensão, com a intolerância, com a calúnia, com a intemperança e com a perseguição;
se em todo caminho que escolhemos encontramos sempre espíritos que nos ferem e desanimam;
pensemos nas palavras de Jesus e apresentemos-nos com boa vontade para a batalha interior com as nossas próprias fraquezas e imperfeições.
Esqueçamos nossos padecimentos e engajemos-nos na tarefa da caridade. Suportemos nossas dores evitando torná-las sofrimentos desnecessários. Sejamos resignados trabalhadores na seara do Cristo e encontraremos o consolo necessário para as lutas que hoje nos parecem inglórias.