JONAS, O CONTADOR DE HISTÓRIAS

 

VOLTAR - JONAS                                                                            Música: Traumerei - Schuman

 

A Receita da Felicidade

Vivemos num planeta de provas e expiações e, portanto, dizemos que a felicidade não é coisa deste mundo. As aflições fazem parte da vida do homem e representam a aplicação da lei de Deus na conduta humana. A dor é o instrumento que o Criador escolheu para retificar, reparar, ensinar e burilar o espírito em sua escalada evolutiva.

Seria certo, então, afirmarmos que Deus nos criou para a dor? Que Deus quer que os homens aprendam pela aflição e pelo sofrimento? Não! Claro que não! O Pai não criou o homem para a dor, mas para felicidade! Mas é preciso saber onde buscá-la. Quase sempre onde ele a procura, isto é, no caminho que ele trilha, encontra dor e aflição. Isto porque, em geral, os homens baseiam seus valores de vida nos conceitos da matéria e sofrem quando suas intenções ou os bens desejados não são conseguidos. Posturas egocêntricas  levam sempre a disputas e a conflitos com seus semelhantes que acarretam a necessidade de sofrimento reparador.

 É difícil compreender que a felicidade está no próprio caminho, no serviço bem prestado, no desprendimento de si próprio, na compreensão do semelhante, nas oportunidades de viver, de aprender e crescer em amor e sabedoria.  A felicidade é uma simples questão de postura e de aquisição de valores espirituais e pode ser encontrada em cada passo do caminho.

Costumamos manter sentimentos de perda onde esta, na realidade, não existe. Sofremos pela perda de prestígio, pela falta de reconhecimento, pela ausência de poder, pela falta de compreensão alheia, pela perda de bens materiais, por mais insignificantes que estes possam ser. Por vezes até dizemos: “Sinto raiva quando perco alguma coisa! Não gosto de perder nada!”

Diante do sofrimento, temos o hábito de projetar nossas vicissitudes nos outros. Reclamamos das circunstâncias, reclamamos das pessoas e, em geral, responsabilizamos os outros por nossos dissabores.

Na realidade, a dor só existe porque a imperfeição ainda reside nas criaturas. Assim como as dores físicas são sempre a indicação da existência de anomalias ou distúrbios no organismo, as dores morais colocam à mostra as falhas e a inferioridade de nosso ser espiritual. Poder-se-ia, então, partir da premissa de que, se hoje sofremos de dores morais é porque nosso espírito ainda carrega  imperfeições. Egoísmo, orgulho, prepotência, soberba, cupidez, intempestividade e ciúme aprisionam nossos sentimentos, tolhendo e deformando a percepção que temos de nós mesmos, produzindo angústia e estados comuns de baixa auto-estima, de menos valia e de depressão que podem levar, os mais invigilantes, ao suicídio e à loucura.

Por outro lado, a postura de resignação é sempre uma indicação de fortaleza moral, pois, filha da humildade, esta virtude sublime eleva e prepara o homem para vencer a si mesmo.

Para nos ajudar a compreender como buscar a felicidade, neste mundo, selecionamos no livro Jesus no Lar, do Espirito Néio Lúcio,  psicografado por Francisco Cândido Xavier e publicado pela FEB, uma história que se passa em reunião de Evangelho na casa de Simão Pedro, onde Jesus compartilha lições com seus discípulos. Intitula-se A Receita da Felicidade”.

Conta-nos assim Néio Lúcio:

Tadeu, que era dos comentaristas mais inflamados, no culto da Boa Nova, em casa de Pedro, entusiasmara-se na reunião, relacionando os imperativos da felicidade humana e clamando contra os dominadores de Roma e contra os rabinos do Sinédrio.

Tocado de indisfarçável revolta, dissertou largamente sobre a discórdia e o sofrimento reinantes no povo, situando-lhes a causa nas deficiências políticas da época e, depois que expendeu várias considerações preciosas em torno do assunto, Jesus perguntou-lhe:

- Tadeu, como interpreta você a felicidade?

- Senhor, a felicidade é a paz de todos.

O Cristo estampou significativa expressão fisionômica e ponderou:

- Sim, Tadeu, isto não desconheço; entretanto, estimaria saber como se sentiria você realmente feliz.

O discípulo, com algum acanhamento, enunciou:

- Mestre, suponho que atingiria a suprema tranqüilidade se pudesse alcançar a compreensão dos outros.

Desejo, para esse fim, que o próximo me não despreze as intenções nobres e puras.

Sei que erro, muitas vezes, porque sou humano; entretanto, ficaria contente se aqueles que convivem comigo me reconhecessem o sincero propósito de acertar.

Respiraria  abençoado júbilo se pudesse confiar em meus semelhantes, deles  recebendo a justa consideração de que me sinta credor, em face da elevação de meu ideal.

Suspiro pelo respeito de todos, para que eu possa trabalhar sem impedimentos.

Regozijar-me-ia se a maledicência me esquecesse.

Vivo na expectativa da cordialidade alheia e julgo que o mundo seria um paraíso se as pessoas da estrada comum me tratassem de acordo com o meu anseio honesto de ser acatado pelos demais.

A indiferença e a calúnia doem-me no coração.

Creio que o sarcasmo e a suspeita foram organizados pelos Espíritos das trevas, para tormento das criaturas.

A impiedade é um fel quando dirigida contra mim, a maldade é um fantasma de dor quando se põe ao meu encontro.

Em razão de tudo isso, sentir-me-ia venturoso se os meus parentes, afeiçoados e conterrâneos me buscassem, não pelo que aparento ser nas imperfeições do corpo, mas pelo conteúdo de boa-vontade que presumo conservar em minh’alma.

Acima de tudo, Senhor, estaria sumamente satisfeito se quantos peregrinam comigo me concedessem o direito de experimentar livremente o meu gênero de felicidade pessoal, desde que me sinta aprovado pelo código do bem, no campo de minha consciência, sem ironias e críticas descabidas.

Resumindo, Mestre, eu queria ser compreendido, respeitado e estimado por todos, embora não seja, ainda, um modelo de perfeição que os Céus esperam de mim, com o abençoado concurso da dor e do tempo.

Calou-se o apóstolo e esboçou-se, na sala singela, incontido movimento de curiosidade ante a opinião que o Cristo adotaria.

Alguns dos companheiros esperavam que o Amigo Celeste usasse o verbo em comprida dissertação, mas o mestre fixou os olhos muito límpidos no discípulo e falou com franqueza e doçura:

- Tadeu, se você procura, então, a alegria e a felicidade do mundo inteiro, proceda para com os outros, como você deseja que os outros procedam  para com você. E caminhando cada homem nessa mesma norma, muito breve estenderemos na Terra as glórias do Paraíso.

Nas relações do homem com o homem e do homem com o mundo existem sempre a busca e a cobrança dos direitos de cada um. Indiscutivelmente todos temos direito à vida, enquanto esta for a vontade do Pai, e conseqüentemente todos temos o direito de usufruir as condições básicas que ela nos proporciona.

Os homens preocupam-se tanto com seus direitos que desenvolveram todo um conjunto de leis para assegurá-los nas mais diferentes situações. São códigos e leis de direitos sociais, civis, humanos, trabalhistas, de cidadania, de propriedade, ambiental e toda uma sorte de disciplinas do Direito.

Para defendê-los, construiu e instituiu tribunais destinados a fazer cumprir aquilo que lhes é assegurado pelas leis terrenas.

Mas o caminho da felicidade não se encontra nessa busca de direitos e, sim, no cumprimento de deveres. Enquanto a legislação humana está cheia de códigos e leis de direitos, a lei de Deus se constitui num código sublime de deveres. Não existe uma só linha na legislação terrena sobre os deveres do homem para com a vida, a sociedade, a família, o trabalho, o próximo e para com o mundo.

Para o homem comum, as posturas de revolta, de reclamação e de desânimo, diante das circunstâncias da vida são sempre mais fáceis. Estas posturas caracterizam aqueles que tudo exigem, que tudo esperam e nada se dispõem a dar. No entanto, o caminho correto é o daqueles que procuram construir seus destinos e suas vidas pelas próprias ações, independentes das circunstâncias externas que os visitam.

A proação é sempre a solução para os problemas da vida, pois gera progresso, assegura trabalho, transforma as situações vigentes, produz aprendizado, desenvolve o espírito, aumenta a capacidade de dar de si para o mundo. Só há progresso quando existe trabalho. Só há trabalho quando há ação efetiva. Aqueles que pedem e permanecem esperando jamais chegam, jamais alcançam. É preciso pedir e agir, buscando o desprendimento, a resignação e a fortaleza moral.

Ao invés de cobrar por seus direitos, o homem deve fazer valer os direitos do próximo. Ao invés de esperar compreensão, deve compreender os outros. Ao invés de reclamar o amparo, deve amparar a quem precisa. Ao invés de reclamar o perdão para suas ofensas, deve perdoar aqueles que o tenham ofendido.

A receita da felicidade ofertada por Jesus é simples. Passa sempre pela proação e pela resignação necessárias para que possamos conhecer nossas próprias limitações como seres em evolução. A lição de Jesus a seu discípulo Tadeu não podia ter sido mais clara. Enquanto Tadeu enxergava-se no centro do mundo, requerendo que a sua felicidade se baseasse nas ações alheias, Jesus o concitava a fazer a mesma coisa com seus irmãos de humanidade. “Faça aos outros exatamente aquilo que desejaria que fizessem a você”.

Voltar para o início

VOLTAR - JONAS